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Epifania dos Vinte e Oito

“Aquele que mover o mundo, primeiro se moverá.”

“Aquele que mover o mundo, primeiro se moverá.”

Epifania dos Vinte e Oito

31
Ago21

O Sonho da Laura

Recentemente, numa visita familiar a Barcelos, dei conta de que, a cerca de trinta quilómetros acima de distância, estava a decorrer aquela que é considerada por muitos a maior romaria do país. Tendo eu uma especial ligação com este evento, não podia regressar a Lisboa sem antes arrastar o meu pai e a minha madrinha até lá, para que pudessem sentir um pouco da magia que eu senti no passado.

Apenas um pouco, porque desta vez a romaria apresentou-se numa versão minimalista, medida de contenção face à situação pandémica em que vivemos, mas nem por isso desapontou a nossa visita. Este ano, organizaram uma exposição a céu aberto, onde pude confirmar que não só o nome da cidade faz parte da minha história, como o meu nome faz agora parte da história da cidade.

Este mês, faz quatro anos desde que fui o autor vencedor do cartaz oficial da tão aguardada festa de Viana do Castelo, a Romaria da Nossa Senhora d’Agonia. Mas não é sobre a “chieira” de ter ganho o concurso a razão deste meu testemunho, os títulos já pouco me importam nesta fase da vida, é sim pela satisfação que sinto por ter tornado realidade o sonho de alguém.

 

Fotografia: Simão Oliveira © 2021 (Sebastião - A Quintinha da Liz)Fotografia: Romaria d'Agonia © 2017

 

Esta grande festa em honra da padroeira dos pescadores atrai todos os anos cerca de um milhão de pessoas. Tal como os Tapetes da Ribeira, antigamente feitos de flores, que ocupam por esta altura cerca de 100 mil metros de ruas, têm resistido ao sopro do vento devido ao peso do sal tingido, também a romaria tem resistido à evolução dos tempos devido ao peso da sua história.

Neste evento repleto de tradições, a escolha do cartaz representativo de cada edição é também uma delas. Essa escolha é feita por um grupo de júris num concurso aberto a qualquer interessado, de qualquer parte do mundo, sejam estes profissionais ou amadores. A única condição exigida é a autenticidade comprovada das propostas enviadas. Entre os elementos que devem constar nos trabalhos, de forma a transmitir o “espírito” desta festa, está a imagem de uma das mordomas que todos os anos participam no Desfile da Mordomia, habitualmente usadas como figura principal em todos os cartazes eleitos, e é sobre o sonho de uma delas que hoje escrevo.

São mais de 600 mulheres que exibem neste desfile todos os trajes das freguesias de Viana do Castelo, símbolo tradicional da região. Muitas destas moças, como também são conhecidas, ambicionam um dia ser a capa desta grande festa, é o caso da Laura, irmã mais nova de um amigo meu de infância, que aos dezasseis anos de idade passou a poder realizar parte do seu sonho ao tornar-se numa das mordomas deste desfile. Deste modo, abriu também espaço para a participação do irmão, actualmente colecionador de trajes, e que a veste desde então com o máximo rigor que a sua paixão exige.

Ambos têm raízes no Alto Minho e partilham da mesma paixão pela tradição desta bonita cidade do norte do país. Embora tenham vivido na capital grande parte das suas vidas, sempre estiveram ligados às tradições minhotas, ora como entusiastas da romaria, ora como elementos do Grupo Etnográfico Danças e Cantares do Minho, em Lisboa.

Faltando ainda concretizar uma parte do sonho da Laura, o Ivo pediu ajuda ao presidente da Junta da Freguesia de Campolide, onde ambos crescemos, para que pudessem concorrer ao concurso do cartaz da romaria. Naquela altura eu trabalhava como Designer Gráfico no departamento de comunicação, isto significa que este pedido veio parar à minha mesa.

Inicialmente, não encarei este desafio do presidente com boa cara, estava atulhado de tarefas e não considerava este pedido, uma prioridade entre os demais. Para aumentar o meu desagrado, faltava pouco mais de uma semana para a data limite do envio das propostas. Sentia-me inteiramente fora de pé, nunca tinha ouvido falar deste evento, desconhecia o seu carácter, e muito menos a importância do mesmo para estes irmãos cuja mãe me viu crescer, e a quem decidi ligar para preencher essa lacuna. Foi a partir dessa chamada, através da forma apaixonada com que a Leonor me falava da romaria, e das histórias que me contava sobre a relação da sua família com as tradições de Viana, que comecei realmente a entender a grandeza deste evento e o quão significante para ela seria este meu gesto.

Sensibilizado pela causa, abracei o desafio com maior entusiasmo e sentido de missão. Reuni toda a informação que precisava, estudei a história da romaria e da cidade, tanto quanto possível, e dei início à obra. Tudo isto com a colaboração do Ivo, que vestiu rigorosamente a Laura com o traje de lavradeira de Areosa, que pertence à sua colecção, e com o meu amigo João Barata, na altura colega de trabalho, que fez a fotografia que colocou a Laura como centro do cartaz, e cujo sorriso foi alvo de muitos elogios durante toda a romaria. Tinha em mim a enorme responsabilidade de aplicar na composição do cartaz, com igual mestria, o trabalho que cada um deles realizou.

Depois de ter analisado o arquivo de todos os cartazes da romaria, que me perdoem a falta de modéstia, entendi na altura que teria grande possibilidade de vencer este concurso. Não estando a pôr em causa a qualidade dos mesmos, grande parte deles seguiam uma linha muito conservadora, e se eu considerei demasiado ousado apresentar uma proposta moderna e arrojada num evento carregado de tradições, ao mesmo tempo pensei que seria a oportunidade de marcar pela diferença, e de mostrar que seria possível inovar e celebrar a história sem comprometer a sua integridade.

Naquela altura, não posso negar que me fez cócegas no ego saber que a nossa proposta foi eleita vencedora. Para aumentar este sentimento, tive ainda direito a algumas mordomias nas três vezes que fui convidado pela Câmara Municipal para ir a Viana do Castelo. Entre tais privilégios, tive direito às viagens, estadia em hotéis, refeições em restaurantes, e ainda a oportunidade de assistir ao 40º Aniversário da Companhia Nacional de Bailado, no belíssimo Teatro Municipal Sá de Miranda que tem mais de um século de existência. É caso para dizer que me senti alguém muito importante, e embora hoje não seja atraído por este tipo de luxos, nem movido por tais sentimentos, estou grato por ter saboreado tais frutos.

Na primeira vez, subi em direção a Viana para ser entrevistado pela imprensa local, na segunda para a cerimónia de apresentação do cartaz, numa enorme quinta, com a presença da comunicação social e das figuras mais influentes da região do Norte, e na terceira para finalmente presenciar e viver, o que já começava a pressentir, a grandiosidade e a magia da Romaria da Nossa Senhora da Agonia.

Se já tinha sido contagiado pela beleza da cidade à primeira visita, na romaria fui totalmente arrebatado pelo espírito da festa, e pela presença de milhares de pessoas que enchiam as ruas do centro histórico de Viana do Castelo. Entre as várias actividades que integravam o programa do evento, destaco o dia do Cortejo histórico-etnográfico, um autêntico museu em movimento, onde vi a Laura desfilar com o seu estonteante sorriso, em cima de um carro alegórico que tinha como pano de fundo o cartaz do evento, impresso numa escala gigante com mais de cinco metros de altura, e destaco a Procissão ao mar, onde pude embarcar e assistir, num lugar privilegiado, a uma cerimónia de homenagem àquele que é o elemento que caracteriza grande parte da história desta cidade, onde dezenas de barcos se apresentavam com mastros embandeirados, em volta da embarcação onde estavam o padre e a imagem da Senhora da Agonia para abençoar o mar, para que este fosse generoso com os pescadores.

Para concluir, devo dizer que me sinto inteiramente grato por ter tido a incrível oportunidade de viver toda esta rica experiência, desde a concepção do cartaz até ao último dia da romaria. Entre todos os momentos que aqui descrevi, aquele que guardo e recordo com maior satisfação, é a imagem do rosto da Laura, banhado em lágrimas de felicidade, reflectindo o sentimento de alguém que estava a viver um sonho tornado realidade, no dia da cerimónia oficial de apresentação do cartaz vencedor.

Nesta curta viagem que é a minha vida; as memórias daquilo que vivo é tudo o que eu levo; as memórias daquilo que faço é tudo o que eu deixo.

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