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Epifania dos Vinte e Oito

“Aquele que mover o mundo, primeiro se moverá.”

“Aquele que mover o mundo, primeiro se moverá.”

Epifania dos Vinte e Oito

23
Jan23

O Berro de Quincas


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Hoje vou falar-vos sobre o meu encontro com alguém que teve duas vidas e três mortes. Não me refiro a nenhuma experiência espiritual esotérica, mas ao conto de Jorge Amado, publicado pela primeira vez em 1959, numa revista carioca chamada Senhor. Mais tarde, foi editado em livro e tornou-se uma das obras mais famosas do escritor.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, embora seja uma pequena história, escrita numa linguagem simples, o que a torna alcançável a todo o tipo de público, trás consigo mensagens um tanto profundas. Se julgasse-mos o livro pelo título, levaria-nos erroneamente a pensar de que se trata de um drama, mas na verdade, estamos perante uma sátira social que mistura o real e o absurdo de uma forma um tanto cómica.

Neste conto, Jorge Amado, constrói uma narrativa em torno da dualidade da vida de um homem que deixou de parecer Joaquim, homem domesticado pelas convenções sociais, funcionário público, e aparentemente bem sucedido aos olhos da sua família e dos seus vizinhos; para ser Quincas, o homem que um dia largou tudo, entrou num bar que habitualmente frequentava, entornou um copo de água achando que era cachaça, e deu o grito da sua libertação — o grito que o tornou no boémio mais famoso das ruas de Salvador, que fazia troça dos valores burgueses, dos deveres cívicos, e da hipocrisia da sociedade.

Ler este conto, foi como regressar ao passado e resgatar algumas memórias, um passado não tão longínquo onde um dia também fui Joaquim, e um passado mais recente onde eu já era Quincas. 

Já fui o jovem que perseguia a ideia de “ter sucesso”, e que durante muitos anos carregou o fardo de tentar “ser alguém”, encaixando-se lentamente nos moldes da sociedade perfeita, para ser o jovem que descobriu que já nascera sendo alguém, e que o sabor do sucesso que antes perseguia e começara a sentir, era na verdade o sabor a corante. 

Quanto ao passado recente, refiro-me à primeira viagem internacional que fiz sozinho, há cerca de um mês, para Salvador da Bahia justamente, cidade pela qual me apaixonei de imediato, pelo seu lado pitoresco e por todo o património que carrega, e que ainda hoje me invade alguns sonhos. Nunca imaginei que um dia estaria no Largo Quincas Berros D’agua, nome do personagem principal de um livro que constava há muito na minha lista de livros a ler.

Ao entrarmos no mundo de Quincas, somos automaticamente transportados para Salvador, inundados pela cultura baiana, acordados com uma chapada de realidade, e intrigados com uma pitada de fantasia.

29
Jan22

Será activismo ou mediatismo? Talvez ambos.

Recentemente, a psicóloga Joana Amaral Dias, também activista, comentadora e colunista política, decidiu abordar no seu programa “A Nova Variante”, apresentado em directo na sua conta de Instagram às quartas-feiras, as medidas de controlo da pandemia, sobretudo a que indica obrigatoriedade de apresentação de certificado digital no acesso a determinados estabelecimentos. Neste episódio, num formato pouco habitual, enalteceu a sua resistência face a esta medida, ilustrando juntamente com um grupo de amigos, como deveriam proceder aqueles que, por falta de certificado, estão inibidos de frequentar o interior dos restaurantes. O resto já todos sabem certamente.

Guardo pela psicóloga todo o meu respeito, e até alguma consideração pela sua ousadia em defender publicamente as suas ideias, muitas vezes contrárias ao status quo vigente na sociedade. Reconheço-lhe igualmente o papel fundamental que tem tido no apoio ao jornalismo independente, que tem revelado as falhas da história que nos tem sido narrada pelos principais órgãos de comunicação social e pelo governo. Digamos que, de um modo geral, tenho apreço pelas questões que põe em cima da mesa, e partilho até de algumas ideias que defende, porém, raramente concordo com a metodologia que frequentemente utiliza para fazê-lo. 

Mais uma vez, o mesmo se verifica neste episódio do seu programa, em que me sinto alinhado com os valores defendidos, mas não com a sua conduta, nem com a forma como abordou o tema. Não querendo ofender qualquer interveniente do vídeo em questão, considero que a motivação do mesmo foi algo imatura e superficial. Todos os procedimentos foram feitos em um ambiente controlado, e o facto de terem realizado o pedido na modalidade take-away revelou isso mesmo, quando a intenção era permanecer no interior do restaurante. Pareciam querer provocar um pouco de alarido, mas não o suficiente para se verem numa iminente situação de impotência. Espero estar errado, mas desse modo, comprometeram não só a oportunidade de provocar uma reflexão profunda nas pessoas, como também a de mostrar efectivamente, num cenário mais rígido, como estas poderão actuar de forma prática e legal, caso se dignem a entrar num estabelecimento público sem o dito certificado.

Em tempos escrevi um artigo neste blogue sobre o uso do activismo, abraçado com as redes sociais, como uma ferramenta de busca por aprovação social. Foi-me difícil dissociar essa ideia, da intenção deste vídeo que me pareceu muito mais sobre mediatismo do que sobre activismo. Tenho dúvidas de que esta seja a via mais adequada na luta pelas liberdades individuais, e pelas causas outras que habitualmente costuma defender. Creio existir aqui um levantar de bandeira que considero ser uma atitude contraproducente, apenas promove o separatismo e o tribalismo. Não Estar vacinado é uma condição voluntária, não é uma camisola, e muito menos um clube.

Quando nos rebelamos contra algo, devemos preservar o nosso estado de consciência, porque se formos demasiado passionais nas nossas acções, facilmente perdemos o equilíbrio e nos tornamos primitivos. É preciso ter cuidado com o poder que as pessoas nos atribuem quando defendemos afincadamente as nossas posições em público, porque à medida que esse poder cresce, aumenta também a probabilidade de cairmos na tentação de querermos ser o messias do povo. Nenhum homem carrega verdades absolutas, e essa é a principal razão pela qual sigo ideias, e não sigo pessoas.

Pessoalmente, na minha condição naturalmente assumida de não vacinado “contra” a COVID-19, embora tenha o boletim de vacinas em dia, prefiro estar rodeado de pessoas onde sou bem recebido, e frequentar apenas lugares onde sou bem-vindo. Nenhum cliente que seja mal servido, ou mal recebido, em determinado estabelecimento, voltará a frequentar tal espaço, a menos que seja por benefício da dúvida. Assim era antes de a ONU ter declarado a existência de uma pandemia, e assim continuará a ser, a única diferença é que agora sabemos de antemão se somos ou não bem-vindos num determinado sitio.

Não vejo utilidade alguma em impingir a minha presença quando ela não é vista com bom olhos, salvo raras excepções, em que tal insistência seja imprescindível para minha sobrevivência, como por exemplo em instituições de serviços públicos, farmácias, hospitais, e supermercados. Se um dia chegarmos a tal ponto em que eu seja privado de frequentar tais lugares, talvez aí a minha natureza primitiva ganhe mais força, pois entre a morte e a vida, eu prefiro a vida, e não garanto inteira sanidade se por ela estiver a lutar. 

Enquanto esta discriminação estiver reservada a espaços culturais, lazer nocturno, ou de restauração, eu passo bem, existem muitas outras opções para me satisfazer a um nível lúdico e intelectual. É claro, não sou egoísta ao ponto de pensar que está tudo bem com esta privação selectiva porque esta ainda não me atingiu. Bem sei, que muitas pessoas estão a ser prejudicadas noutros lugares de grande importância na sociedade, como é o caso de alguns locais de trabalho e de algumas instituições de ensino. Nesses espaços sim, seria útil, e com maior sobriedade, filmar uma experiência social do género da que vimos neste episódio que decorreu no McDonald’s do Marquês de Pombal.

Se algumas mentes mais polarizadas, que possam eventualmente ter lido este texto, se sentiram um pouco confusas quanto à minha posição, com todo o respeito vos peço, que não se apressem a tentar colocar-me numa caixinha, que se libertem da preguiça de pensar, e pratiquem o exercício de ver o mundo a cores. O convite à reflexão é o verdadeiro motivo de eu comentar, com toda a imparcialidade, as acções praticadas pelos intervenientes deste episódio do programa A Nova Variante. Não é, nem se propõe ser, um ataque à autora do mesmo, uma vez que nada lhe tenho contra, bem pelo contrário. 

 

18
Jan22

Snobismos à Parte

Pratico hoje, neste auto-retrato, o exercício de me despir dos habituais snobismos com que me habituei a cobrir — como se estes me conferissem qualidades intelectuais e me destacasse entre os demais semelhantes.

 

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Recentemente, dei por mim a questionar se o hábito de afirmar, com alguma presunção, que não reconheço graça no acto de tirar selfies, não será também um acto de vaidade e de um certo narcisismo. Apercebi-me de que alguns ilustres contemporâneos que eu muito admiro, e cuja inteligência me distância a largos passos, fazem coisas no mundo digital que eu normalmente condenaria, e que em nada comprometem a qualidade que fazem notar nas suas obras, ou nos seus feitos. Terei eu a empáfia de achar que também eles estão errados? Jamais! Hoje tenho a perspicácia de entender que talvez eles sim, se sintam mais livres do que eu afirmo ser. Não estarão eles, mais velhos, vivendo como jovens, e eu, mais jovem, vivendo como um velho?

Que necessidade é esta de me querer fazer diferente dos outros quando todos o são à sua maneira? Se considero a autenticidade uma qualidade mais nobre do que a peculiaridade, então que eu Seja, e não que pareça. Podemos pintar-nos da forma como bem nos aprouver, porém, a melhor aprovação não é daqueles que nos veem, mas sim daqueles que nos sentem.

Alguns clichés têm a sua razão de existir, como aquele que diz que o segredo da vida está no equilíbrio das coisas. Todo o meu trabalho é uma revelação, é uma revelação do que eu sou, do que eu sinto, do que eu penso, e do que eu vejo, e quem eu sou tem um rosto.

Tanta merda para publicar uma selfie.

01
Dez21

Activismo + Redes sociais = Aprovação social

Podia bem ficar-me pelo título. Não é lá grande fórmula, tampouco uma invenção, mas funciona. Dispensa todo e qualquer esforço em expressar por palavras a reflexão que se segue. Tenho a certeza que se a colocasse sobre uma imagem de fundo e partilhasse na minha conta de instagram, renderia uns quantos Likes e partilhas, até mais do que este texto (talvez faça a experiência). As frases bonitas estão na moda, enquanto os livros nem por isso, de onde muitas vezes elas são retiradas. A demanda por conteúdo de fácil e rápida digestão está a aumentar em flecha, e com isso, o número de “produtores de nada” também. Mas vamos ao que interessa.

 

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Considero que existe uma diferença entre pessoas ilustres, famosos, e influencers. Estes últimos, os mais recentes, tendem a fundir-se com o título de famosos, já pouco os distingue na verdade. Um famoso que não se torne influencer morre na praia, e um influencer que não seja famoso terá exactamente o mesmo destino. Já os ilustres, que se distinguem por mérito próprio, pela sua excelência e pelas suas capacidades, sobrevivem sem a necessidade de seduzir potenciais seguidores. 

O poder mediático dos ilustres nasce do reconhecimento dos seus feitos e das suas obras, o dos famosos pode nascer de variadíssimas formas, como cair de um skate ou aparecer num reality show, e o dos influencers, nasce do nada. Enquanto nos primeiros, o trabalho é o seu principal foco e o seu reconhecimento apenas uma consequência, nos dois últimos as prioridades estão invertidas. A todo momento têm de se reinventar e explorar novas formas de se manterem na ribalta, porque aquilo que os ascendeu é de tal forma frágil e efémero, que não os sustém na linha da frente por muito tempo. 

As redes sociais tornaram-se numa arena onde todos competem pela atenção do público. As regras do jogo mudaram. Devido ao surgimento do algoritmo e do seu constante aperfeiçoamento, plataformas como o instagram, que antes mostravam no feed de cada utilizador, e por ordem cronológica, todos os conteúdos publicados pelas pessoas que estes seguiam, hoje filtram esses mesmos conteúdos de acordo com uma série de critérios, fazendo com que muitos deles fiquem pelo caminho.

Alguns ilustres aproveitaram a sua notoriedade, isto é, o seu poder, para dar voz, nestas plataformas, a causas sociais com as quais estão genuinamente engajados. Já os famosos e os Influencers, ao perceberem que mostrando preocupações sociais podiam aumentar a sua popularidade entre as massas, passaram também a fazê-lo, gerando assim “conteúdo” que se torna viral, e que os torna a eles próprios notícias de jornal, de revistas cor-de-rosa e tema de conversa em programas de televisão — um pouco à semelhança das pessoas que fazem donativos generosos a instituições para escapar dos pesados impostos. Não é que eu tenha propriamente algo contra isso, ainda bem para as instituições e para os beneficiários. A verdadeira questão é que nem tudo é o que se faz parecer.

No que toca aos donativos monetários, a motivação de cada pessoa pode ser diferente, mas o resultado desse gesto é o mesmo independentemente de quem o faça. Já nas campanhas de sensibilização online, aí o resultado não é efectivamente o mesmo. Quando a intenção é ser falado e ficar bem visto, a sua campanha será algo sem substância, cujo impacto no público será efémero e insuficiente para causar reflexão — trata-se apenas de propaganda e sensacionalismo. Uma publicação ou storie à la activista, no meio de muitas outras sobre coisas triviais, é uma gota no oceano que rapidamente se evapora. Faz-me lembrar alguns políticos e associações quando inauguram projectos sociais ou ambientais, aparentemente inovadores, que depois de ganharem prémios e darem boas machetes na comunicação social, decidem mudar a página e deixar cair esses mesmos projectos por falta de investimento.

Hoje, podemos observar um enorme desequilíbrio no mundo, quer a nível ambiental, quer a nível espiritual. Estamos cada vez mais divididos e polarizados, e muito se deve ao algoritmo do mundo digital que favorece a criação de bolhas sociais. Numa altura em que questões como a crise ambiental, o racismo, a igualdade de género, os direitos dos animais, os direitos da comunidade LGBTI, entre outros, têm dominado a internet e consequentemente os media, os famosos e influencers perceberam que a ostentação de beleza e riqueza, que faziam com maior frequência, não lhes ficaria muito bem no mundo actual. Além disso, podem correr o risco de não saírem de um certo nicho de pessoas, ou até mesmo de serem cancelados. O mesmo podemos observar nas empresas, que hoje se sentem forçadas a repensar a forma como se apresentam no mercado, e como fabricam e vendem os seus produtos ou serviços. Vestem a capa de empresas verdes, mostram preocupações ambientais e sociais, e adotam práticas mais sustentáveis e humanas para não serem alvo de processos, nem apanhados em escândalos que poderão comprometer a sua cotação na bolsa. Relembremos, é apenas uma capa na maior parte dos casos.

Para ser mais preciso, estas pessoas já não procuram apenas likes e seguidores, procuram também sentir que são especiais e mostrar que fazem a diferença no mundo — já não é cool ser-se apenas famoso. É preciso ser-se activista e filantropo, para garantirmos o nosso lugar no céu e sentirmo-nos como uma espécie de Madre Teresa de Calcutá. Carregam a pretensão de querer mudar o mundo e de influenciar as massas, enquanto no backstage são o oposto daquilo que pregam, e onde por vezes são apanhados na curva. Querem ser Gretas e Malalas com apenas um quinto do esforço e da renúncia que estas têm de fazer diariamente, assim como muitas outras vozes activas pelos direitos humanos e pelo meio ambiente.

Durante o período de confinamento a que todos fomos submetidos no âmbito da pandemia, observei que muitas das pessoas cuja vida profissional depende do público, e que foram muito prejudicadas, como por exemplo a classe artística e cultural, aproveitaram o tempo livre para se dedicarem mais ao activismo fast-food. Frequentemente faziam lives e publicações nas suas redes a defender causas pelas quais tinham alguma simpatia, ou nas quais se reviam. Para mim, foi notório a falta de profundidade no que defendiam, e em muitos casos, completamente desalinhados daquilo que habitualmente representam. Foi um claro aproveitamento dos temas que pontualmente dominavam os noticiários em todo o mundo, para poderem fazer conteúdo e assim manterem a sua popularidade. 

Embora o que me tenha motivado a escrever sobre este tema tenha sido as capas de beatice e moralismo que observei nas pessoas que dominam a atenção do público nas redes sociais, esta prática estende-se a todo e qualquer utilizador comum que tenha uma conta numa destas plataformas. Neste grupo o cenário de hipocrisia é ainda mais visível. Se em relação ao primeiro grupo, tudo o que escrevi foi convicção minha, neste segundo é uma certeza, uma vez que muitos dos stories e publicações que vejo, são de pessoas que eu conheço de alguma forma, logo, a hipocrisia se revela para mim como as algas da praia da Ribeira do Cavalo. São capazes de fazer um storie a apoiar um causa ou a manifestar determinada preocupação, e logo a seguir contradizerem-se com uma outra storie vulgar do seu dia-a-dia. Como por exemplo, partilhar uma imagem que manifesta uma preocupação pelo aquecimento global e na partilha seguinte uma fotografia sua no avião em direcção a Punta Cana; partilhar uma fotografia de uma mulher com pelos nas axilas, mostrando ser contra as convenções sociais impostas, e de seguida uma fotografia sua em bikini parecendo um autêntica barbie #afazerpraia; fazer um live participando numa manifestação contra as touradas no Campo Pequeno, e depois um storie com o seu menu no McDonalds’s do Saldanha. Enfim, tenho contradições para dar e vender, seriam precisas mais páginas só para isso.

Quem nunca caiu numa contradição que atire a primeira pedra. 

Eis que o problema não está em por vezes, sem nos apercebermos, acabarmos por ter práticas que não estão inteiramente alinhadas com aquilo que defendemos, ou por vezes, sermos alvo daquilo que nós próprios condenamos — não acredito em perfeição, acredito em aperfeiçoamento. Estou a referir-me apenas aos “políticos” e “activistas” de smartphone, que pregam a sua verdade com arrogância e superioridade moral, verdade essa muitas vezes emprestada por terceiros que fizeram o seu trabalho de casa (ou não), como por exemplo as celebridades e os influencers que seguem nos seus feeds. São também estas pessoas que ostracizam aqueles que não pensam igual a si, e que distorcem factos para incitar discurso do ódio. São os primeiros a desrespeitar o próximo quando confrontados com argumentos contrários, não apenas por se sentirem impotentes com o tamanho da sua ignorância, mas porque sentem que os elásticos que sustêm a sua máscara estão prestes a rebentar.

As redes sociais vieram abrir espaço para que todos nós possamos gritar ao mundo que existimos e o quão especiais somos. Fazemo-lo produzindo e partilhando conteúdos, ou participando em discussões políticas e sociais, mostrando que temos uma opinião e que defendemos causas nobres. Não tenho nada contra isso. Ainda bem que existe um espaço aberto para que todos possam partilhar os seus talentos, ou para que se possam expressar livremente, o problema é que muitos escolhem fazê-lo sem o mínimo esforço e pelas razões erradas. Escolhemos parecer algo que não somos no mundo virtual, para obter algo que não temos no mundo real.

Voltando ao activismo instantâneo. Parece-me claro que existe uma certa vaidade em se praticar o bem. Veste-se altruísmo para ficar na moda, como quem mete um filtro numa fotografia. Pessoalmente, não acredito em altruísmo. Fazer algo de positivo por terceiros é um acto egoísta, fazemo-lo porque nos sentimos bem connosco ao doar-nos. Não existe nada de errado nisso, pelo contrário, triste é fazê-lo e ainda sentir vaidade por isso.

“A vaidade é um principio de corrupção.”

Machado de Assis

24
Nov21

Uma Agrofloresta à Minha Janela

No dia 5 de Agosto, numa quinta-feira, decidi passar grande parte do meu dia na agrofloresta de Campolide, curiosamente, situada frente à janela da sala da casa onde cresci e vivi maior parte da minha vida. É verdade que já lá estive várias vezes, em visitas curtas e pontuais, mas, esta foi a primeira vez que fui por inteiro, sem horas contadas, tendo como único propósito, conhecer este projecto com maior profundidade.

 

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Fotografia: Bela Flor Respira - Agrofloresta de Campolide

 

Numa pequena encosta, entre as portas do viaduto Duarte Pacheco, que dá acesso a uma autoestrada muito movimentada, e as traseiras de uma fila de prédios juntos na horizontal, no Bairro da Bela Flor, o dia começa com a leveza, e com a serenidade que podemos encontrar numa floresta.

Num lado da encosta temos o reflexo da agitação da cidade, sustentada por um gigante aglomerado de carros, conduzidos por pessoas que vivem numa velocidade frenética para fazer cumprir horários. No outro, temos um resquício da tranquilidade de uma aldeia, devido aos costumes trazidos de outros tempos, e dos ambientes rurais de onde vieram os mais velhos habitantes do bairro.

No meio temos a virtude, a agrofloresta de Campolide, um pedaço de terreno baldio que foi reaproveitado por um grupo de entidades, que se uniram para fazer a ponte entre ambos os lados. Nas gerações anteriores, este lugar já serviu de casa, de garagem, de fonte de alimento, e com o passar dos anos, acabou esquecido e abandonado.

O projecto Bela Flor Respira, conseguiu através da revitalização deste espaço, regenerar, não apenas o seu solo, mas também o sentido de comunidade que começava a dissipar-se pela pressão dos tempos modernos, e pela evolução tecnológica que nos empurra cada vez mais para a nossa esfera privada.

Essa pressão, leva-nos pouco a pouco, a perder competências sociais, e a desconectar-nos da nossa natureza humana. É certo que, a própria localização e estrutura do bairro, conferem naturalmente uma certa resistência a essa pressão da vida contemporânea. É um local pequeno, com espaços verdes em abundância, com uma vista privilegiada para o Monsanto, e cujo acesso de carro se faz por uma única estrada que termina num beco sem saída ­— um pormenor que potencia uma maior aproximação entre vizinhos, e faz da rua um lugar seguro para as crianças brincarem livremente, algo que eu considero um luxo dentro de uma capital europeia.

No entanto, estas vantagens por si só, não são suficientes para a preservação de certos valores. Como morador há mais de vinte e cinco anos, sei por conhecimento empírico que é fácil esquecer-nos do privilégio que é viver neste lugar. Tendemos a almejar o que existe para além da nossa casa, e, apenas quando o outro vê ouro no nosso tecto, nos lembramos de olhar para cima.

Aqui, entram em cena um grupo de dinamizadores, com pouca ou nenhuma relação com o bairro, e que reconheceram nele, potencial para desenvolver e aplicar um projecto-piloto, que consiste em transformar espaços verdes da cidade em florestas que geram alimento. Assim reabriram as portas do bairro ao resto do mundo.

O Joaquim, com a aparência de um viking, e a sabedoria de um nativo, é o responsável pela introdução das técnicas de agricultura sintrópica utilizadas na agrofloresta, e pela partilha desse mesmo conhecimento com o resto da comunidade, e com todo e qualquer entusiasta que por lá passe.

Se há três anos poderíamos encontrar neste lugar várias espécies de resíduos, entenda-se lixo, hoje podemos encontrar várias espécies hortícolas, frutícolas e também ervas aromáticas.

Na agricultura sintrópica, além de se privilegiar a manutenção e reintrodução de espécies nativas, as culturas cultivadas são combinadas umas com as outras em linhas paralelas, de forma a aproveitar as diferentes características desta associação e do terreno. Neste tipo de agricultura, aparentemente desorganizada, evita-se criar espaços vazios entre culturas, para maximizar o processo de fotossíntese que torna o sistema mais vigoroso.

Também não se usa herbicidas e insecticidas, pois ao contrário da agricultura tradicional, os insectos e organismos vivos são vistos como auxiliares na sinalização de possíveis deficiências do ecossistema produtivo. Os resíduos resultantes da poda das árvores e arbustos, técnica de aceleramento do processo de sucessão natural, são reaproveitados para alimentar o solo com nutrientes. O que também é devolvido ao solo são os resíduos que sobram das colheitas, isto faz com que se verifique um enriquecimento do solo à medida que o ciclo da cultura avança. Como diria Lavoisier, aqui nada se perde, tudo se transforma.

Primeiro estranhou-se a presença deste grupo no bairro, mas foi a Cátia Sá quem entranhou a presença do projecto na vida dos moradores, sobretudo nas crianças que tanto adoram estar em seu redor. É a pessoa responsável pela parte social do projecto e faz todo o sentido que a tenham escolhido para fazer a ponte entre ele e a comunidade.

A Cátia é um espírito selvagem, isto é, uma pessoa de natureza livre, que questiona as convenções sociais. A única regra com que se rege, é a de que cada passo seu esteja alinhado com as intenções da sua alma. Dotada de uma imaginação incrivelmente fértil, parece às vezes pertencer a um outro mundo, um mundo onde é impossível conceber uma visão estritamente racional, como a que tendemos a criar naquele em que vivemos, e onde tentamos definir e categorizar todos os aspectos da vida – erro que eu próprio cometi ao tentar perceber a sua idade, algo que ainda hoje não sei, e que tão pouco importa. Quando olho para a Cátia vejo a curiosidade de uma criança, a determinação de um adulto, e a serenidade de um idoso, vejo todos eles num só ser.

Estas suas características fizeram-na naturalmente atrair algumas das pessoas do bairro, procurando, escutando e acolhendo, com toda a sua simplicidade, as aspirações e inquietações das suas almas. Foi assim que a conheci, há um ano atrás, enquanto passeava o meu cão perto da agrofloresta, e quando finalmente fiquei a saber o que fazia, um grupo de “estranhos”, nas traseiras do meu prédio, para onde eu olhava com desconfiança através da janela da sala. Na posição de morador de um bairro social, e de quem já colaborou e fundou projectos comunitários, posso garantir-vos que é na falta destas qualidades que falham muitos projectos.

De manhã, quando cheguei à agrofloresta, dei conta de um movimento acima do habitual, algo comum nos dias em que decorrem actividades especiais com outros parceiros. Neste caso, eram os Jardins Abertos, festival que abre os portões dos jardins mais belos da cidade de Lisboa, tal como se descrevem, e que lá estavam a recolher imagens e informações.

A primeira pessoa que encontrei foi a Isabel, recebendo-me com o seu habitual e genuíno sorriso que faz qualquer pessoa se sentir em casa. A Isabel é voluntária na agrofloresta de Campolide desde que este se materializou no território, e parece-me também ser o braço direito da Cátia nesta ponte com as pessoas. Quando a vi, estava a conversar com a Dona Jacinta, uma das mais antigas moradoras da Bela Flor, e também frequentadora deste espaço onde partilha as suas histórias em troca de folhas de chá. Sem saber ainda para onde me direccionar, juntei-me a elas na conversa por algum tempo.

Conheci a Isabel precisamente no momento em que a Cátia me abordou pela primeira vez. Gosta muito de abraços e de histórias de vida, e a sua já deu muitas voltas, mas nem por isso deixa de viver cada dia como se fosse o primeiro. Questiona constantemente a vida, com o intuito de descobrir mais sobre si, e sobre qual a sua missão. Nessa descoberta, entende que o seu propósito é encontrar projectos que já estejam no terreno, com ou sem dificuldades, que acredita serem impactantes e alinhados com a sua visão de mundo, e depois perceber de que forma pode colaborar e acrescentar para que estes arranquem, ou se direccionem no caminho certo.

Estávamos junto à entrada da horta da Fátima, moradora do bairro, e que tem no mesmo espaço um cantinho seu devidamente vedado. Nele cultiva alguns alimentos com as técnicas de agricultura tradicional, embora hoje já aplique alguns dos métodos que aprendeu na agrofloresta. Neste pormenor, podemos verificar de como este projecto é inclusivo e comunitário, pois quando se instalaram no bairro, fizeram-no de forma a respeitar a integridade deste espaço, e de forma a potenciar o que já lá existia.

A Fátima estabeleceu uma relação de confiança com os dinamizadores do projecto, de tal modo, que lhes entregou as chaves de acesso ao seu quintal, para que pudessem ter mais espaço para guardar material, e para também regarem as suas culturas durante a sua ausência, uma vez que actualmente se encontra fora do país por questões de saúde.

Fiquei a saber tudo isto em conversa com a Isabel, dentro da vedação, e depois de a minha curiosidade se ter manifestado ao ver a Cátia entrar para fazer a tal rega. A Isabel tinha entrado logo a seguir para colher umas folhas de couve para a Dona Jacinta, e eu aproveitei a boleia ao mesmo tempo que lançava algumas questões com a vontade de saber mais. Começámos a falar sobre o quintal da Fátima, e usando as couves como metáfora, passámos por questões sobre permitir-nos, além de semear, colher experiências para nutrir a nossa alma, e por último, acabámos a falar sobre o amor.

Ainda durante a manhã, um pouco antes do almoço partilhado, do qual não pude estar presente por motivos profissionais, fui convidado a dar o meu testemunho sobre o projecto para uma das câmeras da organização dos Jardins Abertos.

Depois de almoço, quando regressei à agrofloresta, fui ter com a Cátia à capela (espaço cedido pela cooperativa da Bela Flor), tinha combinado acompanhá-la nas actividades da tarde com as crianças, e por quem já estava rodeada quando lá entrei. Estavam todos reunidos numa mesa redonda, de tampo branco cuja cor mal se via, coberta de tintas, e de pedaços de madeira doados pela junta de freguesia de Campolide, que estavam a ser pintados para servirem placas de identificação para as plantações.

Sentei-me confortavelmente entre elas, observando atentamente o entusiasmo pelo que faziam, e comecei a conversar com a Cátia, missão dificultada pela natural agitação das crianças, cujas vozes se sobrepunham enquanto disputavam pela sua atenção. Ainda assim, fiquei a saber mais sobre projecto na sua perspectiva enquanto dinamizadora comunitária, e ainda rendeu uma interessante conversa sobre o impacto das redes sociais nas relações humanas.

Concluídas as placas de identificação, e arrumada a sala de actividades, eis o momento mais aguardado pelas crianças, a hora da piscina. Na agrofloresta, para onde voltámos, mais especificamente no quintal da Fátima, existe um alguidar laranja, e uma banheira branca de bebé, que são usados no verão para servirem de piscinas, algo que é já uma tradição para elas. Se ambos os objectos parecem demasiado pequenos para albergar cinco crianças, a criatividade delas faz tudo se tornar possível, ora à vez, ora à mangueirada, enquanto fazem também a rega habitual. Nada parece impedi-las de brincarem, e de se refrescarem na água nestes dias de intenso calor. Assim se alimenta o solo da terra, e a alma destas crianças.

Entretanto, decidi caminhar e conhecer melhor os cantos da casa por minha iniciativa. Foi quando avistei o Alessandro, que se encontrava a reforçar a estrutura, feita de canas, que assegura o crescimento saudável do Tomateiro. O Alessandro, que está para o Joaquim como a Isabel está para a Cátia, nasceu no Brasil, e já viveu em vários lugares do mundo. Actualmente, vive em Portugal com a sua companheira, lugar que escolheu para se reconectar consigo mesmo e viver uma vida mais consciente. Quando descobriu a agrofloresta, inspirado pela sabedoria do Joaquim, descobriu também um lugar onde poderia potenciar esse reencontro com a sua natureza interior, acabando por se tornar um voluntário assíduo neste projecto, onde o podemos encontrar todas as quintas-feiras.

Já me tinha cruzado com ele nas minhas curtas visitas, mas nunca ultrapassámos a linha do cumprimento, parecera-me alguém muito introspectivo. Naquela tarde, Intrigado pelo seu estado de presença, e pela atenção que dedicava à sua tarefa, aproximei-me para saber mais sobre o que fazia. Eis que a conversa se estendeu por cerca de uma hora, algo de que nos apercebemos já no final do dia, apenas por sinal da Cátia que começava a arrumar o material.

Foi muito fácil conectar-me com o Alessandro, e por isso, o tempo voou enquanto dissertávamos sobre a vida. Revi-me em muitas das suas questões, numa conversa de tal maneira rica que só poderia ter com alguém dotado de tamanha sensibilidade, e de tamanha presença como aquela que me revelou.

Depois deste meu testemunho, sobra-me muito poucas palavras para fazer uma conclusão à altura deste projecto. Se tivesse que definir a agrofloresta de Campolide numa frase, diria que é um lugar onde a natureza é soberana, e onde a energia humana se eleva.

 

Para conhecer mais sobre este projecto podem visitar o site.

 

31
Ago21

O Sonho da Laura

Recentemente, numa visita familiar a Barcelos, dei conta de que, a cerca de trinta quilómetros acima de distância, estava a decorrer aquela que é considerada por muitos a maior romaria do país. Tendo eu uma especial ligação com este evento, não podia regressar a Lisboa sem antes arrastar o meu pai e a minha madrinha até lá, para que pudessem sentir um pouco da magia que eu senti no passado.

Apenas um pouco, porque desta vez a romaria apresentou-se numa versão minimalista, medida de contenção face à situação pandémica em que vivemos, mas nem por isso desapontou a nossa visita. Este ano, organizaram uma exposição a céu aberto, onde pude confirmar que não só o nome da cidade faz parte da minha história, como o meu nome faz agora parte da história da cidade.

Este mês, faz quatro anos desde que fui o autor vencedor do cartaz oficial da tão aguardada festa de Viana do Castelo, a Romaria da Nossa Senhora d’Agonia. Mas não é sobre a “chieira” de ter ganho o concurso a razão deste meu testemunho, os títulos já pouco me importam nesta fase da vida, é sim pela satisfação que sinto por ter tornado realidade o sonho de alguém.

 

Fotografia: Simão Oliveira © 2021 (Sebastião - A Quintinha da Liz)Fotografia: Romaria d'Agonia © 2017

 

Esta grande festa em honra da padroeira dos pescadores atrai todos os anos cerca de um milhão de pessoas. Tal como os Tapetes da Ribeira, antigamente feitos de flores, que ocupam por esta altura cerca de 100 mil metros de ruas, têm resistido ao sopro do vento devido ao peso do sal tingido, também a romaria tem resistido à evolução dos tempos devido ao peso da sua história.

Neste evento repleto de tradições, a escolha do cartaz representativo de cada edição é também uma delas. Essa escolha é feita por um grupo de júris num concurso aberto a qualquer interessado, de qualquer parte do mundo, sejam estes profissionais ou amadores. A única condição exigida é a autenticidade comprovada das propostas enviadas. Entre os elementos que devem constar nos trabalhos, de forma a transmitir o “espírito” desta festa, está a imagem de uma das mordomas que todos os anos participam no Desfile da Mordomia, habitualmente usadas como figura principal em todos os cartazes eleitos, e é sobre o sonho de uma delas que hoje escrevo.

São mais de 600 mulheres que exibem neste desfile todos os trajes das freguesias de Viana do Castelo, símbolo tradicional da região. Muitas destas moças, como também são conhecidas, ambicionam um dia ser a capa desta grande festa, é o caso da Laura, irmã mais nova de um amigo meu de infância, que aos dezasseis anos de idade passou a poder realizar parte do seu sonho ao tornar-se numa das mordomas deste desfile. Deste modo, abriu também espaço para a participação do irmão, actualmente colecionador de trajes, e que a veste desde então com o máximo rigor que a sua paixão exige.

Ambos têm raízes no Alto Minho e partilham da mesma paixão pela tradição desta bonita cidade do norte do país. Embora tenham vivido na capital grande parte das suas vidas, sempre estiveram ligados às tradições minhotas, ora como entusiastas da romaria, ora como elementos do Grupo Etnográfico Danças e Cantares do Minho, em Lisboa.

Faltando ainda concretizar uma parte do sonho da Laura, o Ivo pediu ajuda ao presidente da Junta da Freguesia de Campolide, onde ambos crescemos, para que pudessem concorrer ao concurso do cartaz da romaria. Naquela altura eu trabalhava como Designer Gráfico no departamento de comunicação, isto significa que este pedido veio parar à minha mesa.

Inicialmente, não encarei este desafio do presidente com boa cara, estava atulhado de tarefas e não considerava este pedido, uma prioridade entre os demais. Para aumentar o meu desagrado, faltava pouco mais de uma semana para a data limite do envio das propostas. Sentia-me inteiramente fora de pé, nunca tinha ouvido falar deste evento, desconhecia o seu carácter, e muito menos a importância do mesmo para estes irmãos cuja mãe me viu crescer, e a quem decidi ligar para preencher essa lacuna. Foi a partir dessa chamada, através da forma apaixonada com que a Leonor me falava da romaria, e das histórias que me contava sobre a relação da sua família com as tradições de Viana, que comecei realmente a entender a grandeza deste evento e o quão significante para ela seria este meu gesto.

Sensibilizado pela causa, abracei o desafio com maior entusiasmo e sentido de missão. Reuni toda a informação que precisava, estudei a história da romaria e da cidade, tanto quanto possível, e dei início à obra. Tudo isto com a colaboração do Ivo, que vestiu rigorosamente a Laura com o traje de lavradeira de Areosa, que pertence à sua colecção, e com o meu amigo João Barata, na altura colega de trabalho, que fez a fotografia que colocou a Laura como centro do cartaz, e cujo sorriso foi alvo de muitos elogios durante toda a romaria. Tinha em mim a enorme responsabilidade de aplicar na composição do cartaz, com igual mestria, o trabalho que cada um deles realizou.

Depois de ter analisado o arquivo de todos os cartazes da romaria, que me perdoem a falta de modéstia, entendi na altura que teria grande possibilidade de vencer este concurso. Não estando a pôr em causa a qualidade dos mesmos, grande parte deles seguiam uma linha muito conservadora, e se eu considerei demasiado ousado apresentar uma proposta moderna e arrojada num evento carregado de tradições, ao mesmo tempo pensei que seria a oportunidade de marcar pela diferença, e de mostrar que seria possível inovar e celebrar a história sem comprometer a sua integridade.

Naquela altura, não posso negar que me fez cócegas no ego saber que a nossa proposta foi eleita vencedora. Para aumentar este sentimento, tive ainda direito a algumas mordomias nas três vezes que fui convidado pela Câmara Municipal para ir a Viana do Castelo. Entre tais privilégios, tive direito às viagens, estadia em hotéis, refeições em restaurantes, e ainda a oportunidade de assistir ao 40º Aniversário da Companhia Nacional de Bailado, no belíssimo Teatro Municipal Sá de Miranda que tem mais de um século de existência. É caso para dizer que me senti alguém muito importante, e embora hoje não seja atraído por este tipo de luxos, nem movido por tais sentimentos, estou grato por ter saboreado tais frutos.

Na primeira vez, subi em direção a Viana para ser entrevistado pela imprensa local, na segunda para a cerimónia de apresentação do cartaz, numa enorme quinta, com a presença da comunicação social e das figuras mais influentes da região do Norte, e na terceira para finalmente presenciar e viver, o que já começava a pressentir, a grandiosidade e a magia da Romaria da Nossa Senhora da Agonia.

Se já tinha sido contagiado pela beleza da cidade à primeira visita, na romaria fui totalmente arrebatado pelo espírito da festa, e pela presença de milhares de pessoas que enchiam as ruas do centro histórico de Viana do Castelo. Entre as várias actividades que integravam o programa do evento, destaco o dia do Cortejo histórico-etnográfico, um autêntico museu em movimento, onde vi a Laura desfilar com o seu estonteante sorriso, em cima de um carro alegórico que tinha como pano de fundo o cartaz do evento, impresso numa escala gigante com mais de cinco metros de altura, e destaco a Procissão ao mar, onde pude embarcar e assistir, num lugar privilegiado, a uma cerimónia de homenagem àquele que é o elemento que caracteriza grande parte da história desta cidade, onde dezenas de barcos se apresentavam com mastros embandeirados, em volta da embarcação onde estavam o padre e a imagem da Senhora da Agonia para abençoar o mar, para que este fosse generoso com os pescadores.

Para concluir, devo dizer que me sinto inteiramente grato por ter tido a incrível oportunidade de viver toda esta rica experiência, desde a concepção do cartaz até ao último dia da romaria. Entre todos os momentos que aqui descrevi, aquele que guardo e recordo com maior satisfação, é a imagem do rosto da Laura, banhado em lágrimas de felicidade, reflectindo o sentimento de alguém que estava a viver um sonho tornado realidade, no dia da cerimónia oficial de apresentação do cartaz vencedor.

Nesta curta viagem que é a minha vida; as memórias daquilo que vivo é tudo o que eu levo; as memórias daquilo que faço é tudo o que eu deixo.

17
Jul21

Sebastião

Entre as várias razões que levam cada vez mais pessoas a tornarem-se vegetarianas, aquilo que mais influência teve nessa minha decisão, foi os benefícios que teria no meu organismo. O conhecimento das atrocidades cometidas contra os animais na indústria pecuária, e as violentas imagens dessa mesma realidade, foram claramente impactantes, porém não bastariam para me mobilizar de forma tão repentina como a que foi essa minha mudança.

Existe uma certa banalização do sofrimento alheio quando somos diariamente bombardeados pelos media tradicionais, e digitais, com imagens e notícias sobre, acidentes, maus-tratos, guerras, pobreza e terrorismo. Maior parte delas são atentados contra o nosso semelhante, no outro lado do globo, ou fora da nossa esfera privada para a qual estamos cada vez mais inclinados. Por mais que saibamos da verdade, é um conhecimento que fica numa dimensão muito superficial para uma grande maioria.

Na actual era da informação, a velocidade com que ela é criada, e a velocidade com que vivemos, não nos permitem reflectir profundamente sobre estes desequilíbrios do mundo que criámos. As imagens que nos chegam podem até provocar uma reacção emocional, mas essa é efémera, dura até à próxima notícia ou até ao próximo post. Não existe tempo suficiente para nos levar a uma acção, apenas cinco ou dez minutos de sensibilidade para nos provarmos que ainda somos humanos.

Para além do factor velocidade no tempo, há também a sua escassez. Mais de metade da nossa vida é passada a trabalhar, seja num emprego, ou na manutenção do nosso quotidiano. Nas horas vagas, preferimos distrair-nos. Já fomos a geração do zapping, hoje somos a geração do scroll. Vivemos em constante busca por gratificação instantânea, podendo “escolher” o que queremos ver, e o que não queremos, contando é claro com a ajuda do algoritmo. Nas coisas sérias ficamo-nos pelas manchetes de notícias, e pelas frases de livros, pois até no saber estamos cada vez mais comodistas.

Com excepção dos que se demonstram demasiado sensíveis para dar de caras com a violência da verdade, estas são algumas das razões pelos quais muitos escolhem desviar o olhar, pois não querem trespassar as muralhas da sua zona de conforto a verdade gera desconforto, obriga-nos a sair do sofá para que não sintamos vergonha da nossa própria existência.

Ao contrário do que se possa parecer, eu não julgo este comportamento. Poucos são aqueles que se apercebem da sua condição de alienação. Desde cedo que, através da psicologia do inconsciente, somos alvo de implantação de valores, de distorções de realidade, e de massacres ideológicos que potenciam o controlo mental das massas, ora por parte dos governos, ora por parte dos media, e das grandes empresas. Vivemos numa sociedade que tem como centro de importância os interesses económico-financeiros, ao invés do ser humano, e da sua harmonia social e ambiental.

Estava a viver um ano sabático, quando tomei a consciente decisão de retirar da minha alimentação qualquer produto de origem animal (ler texto). Muito desse tempo foi passado em pesquisa; vendo palestras e debates; lendo estudos científicos e testemunhos pessoais; a seguir blogues de receitas vegetarianas. Tal como já referi, o meu maior foco estava nas evidências científicas de quanto o meu corpo beneficiaria dessa minha escolha. O meu lado compassivo para com a vida animal veio a ser alimentado apenas um pouco mais tarde, com as experiências que vivenciei depois, e com a adopção do Kovu (meu companheiro de quatro patas).

Na sequência de uma endoscopia que fiz numa clínica em Lisboa, fui atendido por uma médica, de origem italiana, que rapidamente se conectou comigo quando soube desta minha posição em relação à alimentação. Para além de ter sido incrivelmente prestável e atenciosa, isentou-me de pagar o valor da anestesia. No final do exame, enquanto nos despedíamos, escrevia-me num papel alguns nomes de grupos e movimentos da luta pelos direitos dos animais — confidenciou-me que para além de vegan, era também activista.

Esse momento levou-me a investigar sobre o activismo, e a questionar se não deveria também ter um papel mais activo nesse sentido. Cheguei inclusive a assistir a uma intervenção no centro de Lisboa, realizada por um grupo de activistas (uma extensão portuguesa de um movimento mundialmente conhecido). Este grupo, devidamente identificado com o símbolo estampado em t-shirts de cor preta, escolhia um local com muita afluência de pessoas e criavam ali um círculo. Os que permaneciam de pé nesse círculo usavam máscaras a cobrir os seus rostos, e seguravam cartazes com mensagens, ou computadores portáteis que exibiam imagens sensíveis de tortura de animais em matadouros. Os elementos fora do círculo distribuíam flyers, e também algumas mensagens através de megafones, para atrair e sensibilizar as pessoas que por ali passavam.

Como curioso que sou, gosto de ter o conhecimento empírico das coisas. Fui ao encontro deste grupo, com a intenção de participar futuramente numa destas intervenções, e conhecer de dentro para fora as suas reais motivações, e o seu impacto na sociedade. Durante duas horas, e com alguma distância, permaneci sentado num banco enquanto observava atentamente o que faziam. Quando finalmente me aproximei, fui subitamente abordado por um dos porta-vozes. Eu estava muito intrigado com tudo aquilo, e por isso aproveitei a ocasião para fazer uma série de questões que me inquietavam.

Confesso que tinha algum preconceito em relação às motivações particulares, que levam pessoas a prescindirem das suas vidas passadas para viverem inteiramente dedicados a uma só luta, e a uma só causa. Apesar disso, fui muito surpreendido pela conversa que tive com este activista. Não me demonstrou qualquer tipo de fanatismo ou misantropia. Pelo contrário, pareceu-me alguém bastante sensato e compreensivo. Respondeu educadamente às minhas questões provocadoras, não ofensivas, e convidou-me a participar numa acção que iria fazer na semana seguinte, com um movimento fundado por si.

Embora admire e reconheça a importância do trabalho que muitos activistas têm feito, percebi naquele dia que esse não seria o meu caminho, não obstante, senti-me muito inspirado por este encontro.

Na verdade, aquilo que mais me intrigou neste meio do activismo pelos direitos dos animais foi a descoberta da existência de santuários. Enquanto os Jardins Zoológicos, que são instituições lucrativas, e que apesar de actuarem na pesquisa e preservação de espécies, mantém animais selvagens em cativeiro para exibição pública, sob o pretexto de educação ambiental. Os santuários, que são locais sem fins lucrativos, destinam-se a reabilitar, e a albergar em livre ambiente, animais que foram vítimas de maus-tratos, tráfico ou exploração. Depois de tratados, estes animais são reintroduzidos nos seus habitats naturais, ou adoptados por pessoas que poderão cuidar deles em lugares com características idênticas. Os raros casos em que isso não é possível, devem-se à agressividade oriunda dos traumas que alguns destes animais desenvolveram, sendo por isso importante respeitar a abordagem de cada santuário. Nestes lugares, os tratamentos desses traumas são tão importantes quanto os cuidados físicos.

Enquanto pesquisava informação destes locais, assisti a alguns vídeos que eram testemunhos reais da incrível conexão entre as várias espécies do reino animal (humanos e não humanos). Lembro-me de ficar extremamente sensibilizado por ver uma vaca tranquilamente deitada no colo de um tratador, recebendo festas e reagindo positivamente a esse afecto; de assistir a uma galinha pousada no peito de um activista, enquanto ambos comiam do mesmo prato; ou de ver uma cabra a brincar tranquilamente com um porco, como se de um cão e um gato se tratasse.

Eram imagens que só esperava ver com animais que no ocidente consideramos como de estimação. Parecia-me algo tão surreal ver todo aquele amor, e toda aquela empatia entre diferentes espécies, em perfeita harmonia com o ser humano, sem qualquer tipo de medo ou de agressividade. A partir daí, cresceu uma enorme vontade de conhecer pessoalmente um destes santuários, de poder sentir com todas as células do meu corpo, e com toda a dimensão da minha alma, o impacto desta minha decisão que vai muito além da minha própria saúde.

 

210629_export-131.jpgFotografia: Simão Oliveira © 2021 (Sebastião - A Quintinha da Liz)

 

No passado mês de Junho, desafiei o meu irmão mais novo (também vegetariano) a passar um fim-de-semana em Viseu, para fazer voluntariado num santuário chamado “A Quintinha da Liz” — o lugar que mais me intrigou durante as minhas pesquisas. Era algo que já desejava há um anos atrás, sendo impedido pelas medidas restritivas resultantes da pandemia. Apenas seguia o trabalho que desenvolviam a partir das suas redes sociais, e apoiava pontualmente através de doações e de partilhas online dos seus pedidos de ajuda.

Há muito tempo que desejava fazer uma viagem com o meu irmão mais novo, de poder passar algum tempo de qualidade com ele, e de partilhar alguma experiência que fosse motivada por uma paixão mútua. Em vez de embarcar nesta aventura sozinho como planeava, achei que poderia unir esses dois desejos numa só viagem. Para além dele, levei também o Kovu. Contactei a Lara, responsável pelo Santuário “A Quintinha da Liz”, agendámos os dias da visita, acordámos as condições, e seguimos rumo a Viseu.

Estava de noite quando chegámos. A quinta parecia um lugar místico e um pouco sombrio. As folhas das múltiplas árvores mal se viam, e a enorme casa, com o seu aspecto rústico, fazia-se notar através de uma longa tira de led´s de cor verde que contornava o muro do alpendre. Contrastando com todo esse cenário, a Lara recebia-nos com o seu sorriso e a sua boa energia, mesmo depois de um intenso dia de trabalho como é habitual. Ela é a prova viva de que um ser humano não se mede por palmos, a pequenez do seu corpo está longe de conseguir suportar a grandeza da sua alma, tudo em si transborda. Carrega nela uma força do tamanho do mundo, e uma determinação inspiradora alavancada pelo respeito e empatia que tem pela natureza. Só desse modo poderia suportar tal missão, de cuidar sozinha de uma quinta que alberga cerca de setenta animais. Facto esse que muito nos surpreendeu, ao mesmo tempo que lamentávamos tal condição. Pois, embora ela conte com a presença pontual de voluntários, pude presenciar as dificuldades inerentes a essa condição. Não só os animais exigem a sua atenção, também a casa onde vive e hospeda os seus visitantes e voluntários, e a sua agrofloresta de onde nascem os deliciosos mirtilos, cogumelos, laranjas, e ervas aromáticas que utiliza na sua cozinha sustentável.

“A Quintinha da Liz” nasceu há treze anos, fruto das memórias de infância da Lara. Nasce do seu profundo desejo de reabilitar um lugar, com dois hectares, e com dois séculos de história, que é esta sua quinta familiar onde já tinha sido muito feliz. A quinta é financiada apenas pelas vendas do excedente dos produtos alimentares que a Lara cultiva; doações pontuais de visitantes e voluntários (em dinheiro ou em alimentação para os animais); serviço de hotel para cães; pelas férias solidárias, onde podemos permutar na casa da quinta, usufruir da tranquilidade característica daquele lugar, e das maravilhosas refeições vegetarianas preparadas pela sua guardiã. Ainda que tenha várias formas de conseguir dinheiro, este não chega em quantidade suficiente para fazer frente às necessidades da quinta e dos respectivos animais. É um problema partilhado pela maior parte destes santuários, e a pandemia só veio revelar ainda mais essas fragilidades.

Decidindo canalizar todo o dinheiro que tínhamos disponível para apoiar a causa, eu e o meu irmão optamos por partilhar o entusiasmo de acampar dentro da quinta. Depois de entregarmos as nossas doações alimentares, a Lara acompanhou-nos ao local indicado para o acampamento, e, começámos a missão de montar uma tenda às escuras. Desafio bem executado pelo meu irmão que se diz habituado a estas andanças. No entanto, surgiu outro desafio enquanto dormíamos. Sem sabermos porquê, o Kovu começou a ladrar incansavelmente, algo que só conseguimos contornar metendo-o dentro da tenda connosco. Embora esta se tenha transformado numa sauna, foi reconfortante acordar com ele entre nós.

Na manhã do dia seguinte, parecia que tínhamos acordado num lugar totalmente diferente. Tudo parecia mais amplo, e brilhante, graças aos raios de sol que cedo se fizeram notar. Se à noite o silêncio era apaziguador, de dia ressoava toda uma banda sonora orquestrada pela natureza, e pelos animais que já se passeavam livremente desde as seis da manhã, hora em que a Lara acorda diariamente para abrir as portas das vedações. No meio disto tudo, e tal como na noite anterior, o Kovu tentava afirmar-se com todas as suas forças, competindo com a natureza através do seu latido. Nessa manhã fez-se luz, pois percebemos a razão da sua inquietação. Descobrimos que estávamos acampados ao lado do Sol e do Nero, dois porcos enormes para quem o Kovu olhava fixamente e com muita tensão.

Depois de tomarmos o pequeno-almoço, fomos ao encontro da Lara para deixar o Kovu no espaço reservado aos cães, para que durante a nossa visita ele não entrasse em conflito com os animais que se encontravam soltos pela quinta. Esse espaço é uma divisão da casa com a porta sempre aberta, frente ao enorme pátio que tem nas suas traseiras. Foi quando, inesperadamente, demos de caras com um ninho de andorinhas no candelabro de tecto dessa mesma divisão. Ficámos boquiabertos ao observar tal fenómeno, e ao descobrir o mundo da Lara através dos seus olhos. Enquanto ela nos contava a bonita história das andorinhas terem entrado e repousado na sua casa, eu confirmava naquele momento como ela está inteiramente de braços aberto para receber a vida, para acolhê-la, e para elevá-la.

Deixámos o Kovu bem acompanhado com a Ollie, o Sebastião, e a Inca (os três cães residentes da quinta), e demos início à visita do santuário, guiados pela Lara que nos ia contando a história daquele lugar, e apresentando todos os animais que lá vivem. Todos eles têm histórias muito peculiares, teria de escrever um livro para vos contar todas elas, e estaria a negligenciar muitos detalhes que só a Lara tão nitidamente recorda. Por isso, é natural que ao longo do texto refira apenas alguns nomes dos que me chamaram particularmente à atenção.

Naquele fim-de-semana, estavam alojados na casa um casal muito simpático que também desfrutava e colaborava na quinta, juntamente com a sua filha que deveria ter sensivelmente seis anos de idade. Ela estava encantadíssima com os animais. Passeava livremente entre eles, e tocava-lhes com tamanha ousadia e curiosidade, digna de uma criança que se encontra a descobrir o mundo. Enquanto a observava, via-me a mim mesmo nos seus olhos. Com trinta e dois anos, foi assim que me senti naquele lugar, vendo tudo pela primeira vez, deslumbrado com tamanha proximidade, e com o facto de saber que nenhum daqueles seres acabaria no prato de alguém.

Coitada da Lara, que durante a visita, e enquanto partilhava algumas histórias, respondia às imensas perguntas com as quais a bombardeei — eu estava imerso em curiosidade.

Nem tudo era um mar de rosas, pelo meio fiquei a saber de alguns tristes factos sobre a indústria pecuária que desconhecia. Tal como ouvi nas palavras da Lara, o homem cria bebés deficientes para comer. A maior parte destes animais são alterados geneticamente para desenvolverem determinadas características que melhor servem à indústria e ao mercado. Alguns deles, como por exemplo as galinhas e os perus resgatados de aviários, são programados para crescerem excessivamente, produzirem ovos em quantidades ridículas, crescerem com a mesma cor, e com as penas muito frágeis. Tudo isso debilita os seus ossos e o seu sistema imunitário. Como é o caso da “Maria Antonieta”, uma perua com falta de penas nas costas, e o caso do “Magalhães”, um peru elegantíssimo que tem as penas quebradas na zona da “cauda”, e cujo peso do corpo já pouco suporta.

Maior parte destes animais têm pouco tempo de vida, e quem o afirma é a Lara que tão bem conhece as condições em que eles são resgatados. Conhece de perto a dor e sofrimento que sentem, mesmo querendo viver a todo o custo. Muitos deles passam o tempo todo doentes, e nem a medicação que tomam atenua o seu desconforto.

Actualmente, a Lara tem uma perspectiva diferente quanto a resgatar animais nestas condições. Diz que não voltará a fazê-lo no futuro, e questiona-se sobre qual a melhor acção a fazer. Devemos prolongar o sofrimento deles, ou acabar definitivamente com a sua dor? Parece polémica tal questão, vinda de quem diariamente se dedica a salvá-los há mais de uma década. Mas depois de tudo o que ouvi, senti, e observei, não consigo deixar de compartilhar esse seu pensamento, e de reflectir sobre a profundidade dessa questão. Onde começa, e onde acaba o nosso altruísmo?

Depois de feitas as apresentações, a Lara dirige-se à casa para preparar a refeição dos porcos. Enquanto isso, eu e o meu irmão passeávamos pela quinta trocando umas ideias, processando toda aquela informação, e toda aquela intensa experiência que estava ainda a começar. Aproveitei também para tirar algumas fotografias, e para me tentar aproximar dos animais que surgiam pelo meu caminho.

Pouco tempo depois, a Lara regressa com a comida do Sol e do Nero, e voluntariámo-nos para lhe ajudar com algumas tarefas; encher as dezenas de garrafões de água no chafariz da aldeia, transportados num carrinho de mão; carregar baldes enormes de feno desde a antiga adega da quinta, até ao abrigo dos bodes e das cabras; limpar as fezes que os animais vão largando pelo terreno; alimentar alguns animais; dar banho ao rabugento do Simón e à medrosa da Aurora (dois pequenos porcos muito caricatos).

No meio destas tarefas, aparece-me à frente o Martim, um bode de pêlo branco, que apesar de coxear de uma perna devido a uma artrose que tem no joelho, era muito habilidoso na arte de comer pasto. Enquanto os seus camaradas se inclinavam para comer do chão, ele pendurava-se num muro comprido para comer as folhas que cresciam no topo. Para além de ginasta, ainda apresentava características de modelo fotográfico. Segundo a Lara, o Martim adora ser fotografado, e devido ao problema do joelho faz uma pose muito elegante que se assemelha à de um cavalo.

Ao aproximar-se da hora de almoço, uma vez que iríamos usufruir de uma refeição na casa, juntamente com o casal, decidimos ajudar na cozinha. Eu estava deslumbrado dentro daquele espaço que transbordava uma variedade imensa de alimentos, todos eles orgânicos e naturalmente saudáveis. Entre as ideias e reflexões, que trocámos enquanto preparávamos o almoço, trouxe imensas aprendizagens sobre alimentação e sobre sustentabilidade.

Nada naquela casa é desperdiçado. Os restos dos alimentos são aproveitados para a compostagem, a água utilizada no lavatório da cozinha é reaproveitada para agrofloresta, e a água utilizada no lavatório da casa de banho é reaproveitada para a sanita (algo que me fez relembrar o quão surreal é o facto de que usamos água potável nas nossas casas para fazer desaparecer os nossos dejectos, quando em outros lugares do mundo morrem milhões pela sua escassez).

Enquanto se preparava a mesa, aproveitei para ir à casa de banho, no andar de cima, e pelo caminho ia conhecendo alguns cantos da casa. A casa da quinta parece um autêntico museu. Emana um charme rústico com os seus duzentos anos de existência. As suas paredes guardam memórias, cobertas de quadros, e de objectos muito peculiares. O seu altíssimo tecto, com enormes candelabros, lembrava-me os palácios da realeza do séc. XVII. Assim como os seus móveis, de estilo Luis XV, ou talvez Vitoriano (os mais entendidos que me perdoem pela ignorância), que me pareciam ser de madeira mogno, tudo material que resiste ao sopro do tempo para nos contar uma história.

O almoço que a Lara nos proporcionou estava incrivelmente delicioso. A longa mesa da sala de jantar ostentava toda uma riqueza de cores, texturas e sabores. Assim foi também a nossa conversa, onde escutámos atentamente às histórias que partilhava sobre si, e sobre a origem da quinta, aproveitando também o momento para nos conhecermos melhor uns aos outros.

De volta aos trabalhos da quinta, decidi ausentar-me por duas horas para ir até ao centro de Viseu comprar um saco de farelo de trigo — tencionava trazer de Lisboa, mas não tinha encontrado em grandes quantidades. Enquanto viajava de carro, aproveitei esse momento só, para conhecer os cantos da cidade, e para processar tudo o que estava a experienciar naquele dia.

Regressei no final da tarde, a tempo de ajudar a colocar os animais nos respectivos lugares, para que estes não fugissem para a vizinhança durante a noite. Depois disso, fomos buscar o Kovu, despedimo-nos da Lara e do casal, e regressámos à nossa tenda para comer e finalmente descansar.

No dia seguinte, aproveitei a manhã para observar e me aproximar dos animais com mais tempo, já o meu irmão dava uso à sua máquina para fotografar a quinta e os animais. A fotografia é uma das suas áreas de actividade profissional, e como tal, quis fazer um ensaio fotográfico para que a Lara pudesse usar nas suas plataformas digitais e apresentar a sua quinta ao mundo. (Ver fotografias)

Durante essa manhã, houve momentos que fomentaram ainda mais esta minha ligação indiscriminada com os animais. Apesar de ter sentido uma conexão, e uma empatia muito grande com todos eles, levei comigo algumas imagens em particular. A "Vida" no meu colo (uma pata bébé salva pela Lara); o “Martim” a posar para mim enquanto o fotografava; a “Baby-Chic” que detesta ser fotografada, fugindo sempre do olhar da lente, o que é uma pena sendo que é a galinha mais bonita que vi em toda a minha vida, ostentando um gradiente de cor que começa com cinzento-escuro no bico, e acaba em cinzento claro no rabo; a perua “Antonieta” que me tentava comer as calças; o peru “Magalhães” que se atravessava na minha câmera, todo altivo, achando-se o dono do pedaço; o porquinho “Simón”, que resmungava comigo por ter invadido o seu espaço, para fotografá-lo enquanto dormia; a cabra “Lissi” que se encostou a mim para lhe dar afecto; o cão “Sebastião” que viciado nas minhas massagens não me largava na hora da despedida.

Aproximava-se o final da manhã, hora que planeava regressar a Lisboa, quando a Lara amavelmente nos convidou para almoçar na casa — algo a que acedemos com toda a gratidão, pois sentimos que, durante aqueles três dias, desenvolvemos uma ligação muito bonita e genuína. Para além de uma exímia anfitriã, a Lara é um ser incrivelmente inspirador como não me canso de dizer. É uma daquelas forças da natureza que tenta alinhar ao máximo todas as suas escolhas, e todo seu estilo de vida, de acordo com os seus valores, e com os seus ideais. Num mundo cada vez mais desequilibrado, e numa sociedade cada vez mais uniformizada, ela mantém-se fiel a si mesma, e fiel aos seus princípios. Para mim, isso é uma qualidade rara e louvável em qualquer ser humano.

Por toda a profundidade desta experiência na quinta, e pela amizade que criámos com a Lara, creio que não houve um momento de despedida, mas sim um abraço de “até breve!”.

“Eu não tenho dúvidas de que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais, tal como as tribos selvagens deixaram de se comer umas às outras quando entraram em contacto com os mais civilizados.”

Henry David Thoreau, Walden

PS:. Depois de terminar e de partilhar este texto com a Lara, soube da triste notícia de que o Sebastião tinha falecido de forma inesperada na noite anterior.

Nunca se está preparado para ver partir quem amamos, e para ela, que apesar de estar naturalmente habituada a ver partir os animais que estão ao seu cuidado, todas as vezes são como uma primeira vez. No entanto, devemos focar-nos no facto de que o Sebastião foi um animal muito feliz na ”A Quintinha da Liz”. Não tenho a menor dúvida disso, tive o privilégio de testemunhá-lo através do seu olhar.

Desejo que um dia todos os animais possam viver uma vida digna como a que ele viveu na quinta.

Ao Sebastião.

 

 

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30
Jun21

Ser Livre Numa Casca de Noz

Recentemente, no âmbito de uma formação, fui desafiado a reflectir e a partilhar que aspectos da minha vida precisariam ainda de ser trabalhados hoje, para viver a vida que eu idealizo amanhã. Enquanto passeava pelas Salinas do Samouco, sentei-me debaixo de uma árvore e escrevi a seguinte reflexão:

 

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Aos vinte e oito anos de idade, impulsionado pelo medo de chegar ao fim da vida e descobrir que não vivi, tomei a primeira de muitas decisões que vieram revolucionar esta minha breve passagem pelo mundo. Se até ao dia dessa grande decisão todas as minhas escolhas tinham sido orientadas pela razão, daí adiante a minha vida passou a ser orientada pela intuição.

Quando silenciei a minha mente para escutar a minha voz interior, que havia sido calada pelas exigências do mundo moderno, deu-se a descoberta de uma força avassaladora. Tornou-me mais genuíno, e resgatou o sentido da minha vida que tinha sido tomada pelo automatismo e pela velocidade frenética em que vivemos. Hoje tomo decisões guiado pela intuição, e só depois procuro a razão para explicar o que ela decidiu — o lado racional garante a sobrevivência, mas não garante a vida.

Quanto ao futuro, não faço grandes planos, deixo apenas fluir. Quanto maior a capacidade de escutar e sentir a nossa voz interior, menor o medo da viagem.

Se tenho sonhos? Apenas quando durmo. Acordado tenho desejos, e a minha maior ambição é trazer consciência a esse processo de desejar. Quando a fonte do desejo ganha uma expressão inconsciente passamos a viver em modo compulsivo, na incessante missão de satisfazer tais desejos, perdendo aos poucos a capacidade de observar e absorver a beleza da simplicidade da vida. Fugimos de nós próprios nessa busca obsessiva pelo prazer, tornando-nos escravos do desejo e prisioneiros dum ciclo vicioso.

Ao contrário do que nos vendem, prazer não é felicidade — se assim fosse seríamos todos felizes.

Quero depender cada vez menos da dimensão física para estar em paz comigo e com o mundo, para viver feliz e apreciar os pequenos detalhes da vida sem me apegar. Para isso, trabalho internamente para que cada vez mais me sinta como Hamlet gostaria de se ter sentido:

“Eu podia ser livre numa casca de noz, não importa o lugar onde eu esteja, o importante é a minha consciência.”

13
Mai21

Não Há Vida Sem Sementes

Durante toda a minha vida, surgiram no meu caminho algumas pessoas e acontecimentos que foram essenciais e determinantes para a minha formação enquanto ser humano. Embora pareça romantizar, todas essas coisas que na altura pareceram uma simples mistura de acasos e coincidências, e sem servir grande propósito, passaram hoje a ganhar um novo e profundo sentido. Foram sementes que o universo plantou no meu solo e que apenas hoje reuniram condições para germinar — o meu estado de consciência.

Para ilustrar este meu pensamento, uma dessas sementes de que falo é o livro Siddhartha de Hermann Hesse. Esta obra que guardo religiosamente, desde os meus treze anos de idade, fez parte do programa de Língua Portuguesa quando estudava no sétimo ano do ensino básico. Algo invulgar que se explica pelo simples facto de o professor que o introduziu, ter sido ao mesmo tempo professor de Filosofia noutras turmas do colégio onde tive o privilégio de estudar.

Este professor era uma pessoa com uma personalidade bastante peculiar, e não se limitava a injectar-nos informação nesta massa encefálica que todos nós transportamos. Tinha um humor característico, com uma pitada de ironia e de sarcasmo que por vezes utilizava, e com grande classe, para “reduzir um aluno à sua insignificância” — como várias vezes me sugeriu nas alturas em que eu desempenhava a minha voluntária função de bobo da corte em plena sala de aula. A sua maior habilidade era a de provocar as nossas crenças e a de estimular o pensamento crítico, para que nos conhecêssemos a nós próprios e soubéssemos qual o nosso lugar no mundo, ao mesmo tempo que nos ensinava o domínio da língua de Camões.

Esta sua forma peculiar de ensinar, era o modelo de ensino mais próximo daquilo que considero ideal para uma sociedade mais crítica, a fim de construir um mundo melhor e mais justo. Dentro do ensino tradicional vigente, este professor não se limitou a cumpri-lo, ele fez diferente e de uma forma tão elevada que influenciou fortemente a vida de vários alunos — não fui certamente o único tocado pela sua nobre arte de ensinar.

Em certo dia, numa das suas aulas, decidiu levar-nos para uma sala própria para o efeito, e colocou-nos a assistir ao filme O Clube dos Poetas Mortos. Quem já viu este filme, desconfiará certamente que esta sua aula foi mais uma semente que o professor me deixou. Considerei-o até hoje, um dos meus filmes de eleição, mesmo sem ter tido maturidade para absorver toda a sua profundidade e substância.

 

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Quinze anos depois, a viver um ano sabático, e no meio de um processo catártico, após uma experiência “traumática” que me fez colocar toda a minha vida em perspectiva, decidi voltar a viajar pelas folhas do religiosamente guardado, Siddhartha. Dessa vez com vinte e oito anos, e já alcançado os objectivos que havia planeado de acordo com os padrões da sociedade: formação académica; sucesso profissional; carta de condução; companheira; casa; carro. A clássica história que a maioria de nós algum dia desejou viver ou que ainda hoje deseja — em busca da felicidade que alguns dos nossos pais tanto tentaram, e falharam, com essa mesma fórmula que tanto nos venderam na esperança que tivéssemos mais sucesso. A mesma felicidade que desde a infância nos habituámos a ver em desenhos animados, anúncios publicitários, filmes e telenovelas.

A metamorfose que vivia agora fez-me desconstruir todo meu caminho e a deixar para trás tudo o que havia conquistado, pois tudo tinha e já nada me servia. Comecei a questionar quem eu era (será que alguma vez o tinha sido?), e a questionar todas as minhas escolhas até ao momento (será que foram minhas?). 

Ler o Siddhartha durante esse processo de mudança foi uma caminhada avassaladora, foi como levantar o véu de Maya e alimentar a fome de sentido e de verdade que eu andava a sentir. Trouxe-me lucidez e sobriedade após muitos anos de felicidade ilusória impulsionada pela embriaguez dos sentidos. Encorajou-me a começar de novo, a abandonar o velho Eu, e a conhecer os meus padrões; condicionamentos; sistema de crenças; e por fim, a desapegar-me de todos eles. Inspirou-me a descobrir a minha verdadeira essência, a buscar sentido entre o vazio, e a construir uma vida que servisse para mim.

Ainda nessa altura, senti-me motivado a contrariar o princípio que tinha de não ver filmes repetidamente, e, voltei a rever O Clube dos Poetas Mortos, curiosamente, lançado no ano em que nasci. Entre a premissa do Carpe Diem, e os trechos de poesia citados pelo professor Keating e os seus alunos, durante todo o filme, há uma passagem em particular que me tocou profundamente. No momento em que Neil Perry faz a abertura da primeira reunião do clube, na caverna, este cita Henry David Thoreau:

“Fui para os bosques viver de livre vontade; Para sugar todo o tutano da vida; Para aniquilar tudo o que não era vida; E para, quando morrer, não descobrir que não vivi.”

Recordo-me de ter pausado o filme para absorver o que acabava de ouvir. Foi algo arrebatador, pois apercebi-me que era precisamente aquilo que eu precisava fazer com a minha vida. Era a confirmação daquilo que a minha intuição ultimamente me sussurrava. Foi como um farol a iluminar o meu caminho, para que sombra nenhuma me fizesse recuar os passos que começava a dar nessa direcção, e, para eternizar esse momento, decidi tatuar esses versos no meu corpo, tal como um rito de passagem.

Esta relação com o filme estava apenas a começar.

Alguns dias depois, ocorreu-me o seguinte pensamento: se o filme conduziu-me a esta incrível mensagem de Henry Thoreau, esta mensagem terá de me conduzir à sua verdadeira fonte, pois nela beberei muito mais da sabedoria do autor. Eis quando descobri que o livro que Neil Perry citava na caverna se chamava Walden ou a Vida nos Bosques.

Em poucas palavras, pois teria de reservar mais tempo para fazer jus à importância deste livro, posso dizer que fiz na sua leitura a viagem mais incrível e transformadora de toda a minha vida. Um mágico trilho de quatrocentas páginas com uma descrição sensivelmente tocante sobre a flora e a fauna, dignas de um observador assíduo, fazendo analogias e criando metáforas com a condição humana.

Num único livro, escrito em 1846, encontrei uma alma livre, e um homem lúcido que aborda de forma crítica e sóbria temas, ainda hoje, tão actuais como: o capitalismo; o consumismo; o conforto; a desigualdade; a espiritualidade; os valores do trabalho; a desconexão do homem com a natureza; as fragilidades das identidades e relações humanas. Um homem que sem os rótulos do mundo contemporâneo em que muitos se tentam encaixar e consequentemente se dividir, era naturalmente espiritual, minimalista, ambientalista, vegetariano, todos esses nomes sonantes que se disseminaram nas mídias digitais e redes sociais.

Este livro conduziu-me a várias dimensões espirituais e a vários lugares do meu mundo interno. Fez-me querer experienciar uma vida simples, com apenas o essencial, mais perto e conectado com a natureza, e sobretudo, na companhia de mim próprio. Levou-me mais tarde a viver sozinho numa caravana durante cerca de um ano, tendo como principal objectivo a descoberta da palavra Solitude.

Embora céptico por experiência, considero-me um ser místico por natureza, tenho o talento inato de encontrar significado em cada sopro da vida. Se, por um lado, creio que não há sentido na vida além do simples acto de viver, e que, não viemos ao mundo com algum propósito ou missão por cumprir; por outro, creio que sem este misticismo e esta fome de ressignificar as coisas que nela acontecem, eu seria apenas uma alma vazia — uma vida sem poesia, é uma vida sem sabor.

Após estes quinze anos, desde a primeira aula que tive com este meu professor, o solo tornou-se fértil, e as sementes que outrora tinham caído, começaram finalmente a germinar. Agora sei porque reparei nelas, e por que razão as mantive guardadas durante muito tempo.

20
Abr21

Quarenta Centímetros

Antes de mais, gostaria de reforçar que o texto que se segue não é sobre altruísmo. Além de uma reflexão, este texto é um testemunho sobre a minha experiência de doação de cabelo e sobre as razões que me motivaram a fazê-lo. Vejo neste meu simples gesto apenas uma forma de tornar a minha vida mais prática, de trabalhar questões como o apego e a vaidade, e de devolver o sorriso a uma criança.

Durante muitos anos, sobretudo na minha adolescência, fui confrontado com o que muitos de nós em alguma medida e nalguma fase da vida tivemos, problemas de auto-estima e de auto-aceitação. Crescer numa sociedade competitiva como a que vivemos, onde cada vez mais impera o culto da imagem e do corpo, e onde se define o belo e o feio através de modelos de comparação, é muitas vezes uma tarefa árdua e sofrida para muitas crianças e jovens-adolescentes. Se não tiverem uma estrutura familiar sólida e saudável durante o seu desenvolvimento, o conflito interno existente em muitas delas poderá acompanhá-las até na vida adulta. 

Existe uma pressão externa, influenciada pelos mídia e pelos supostos padrões de beleza, para nos enquadrarmos num determinado perfil estético e posteriormente nos sentirmos aceitos, dignos de amor, e de sucesso profissional. Essa pressão é ainda maior nos dias de hoje, na era dos clicks e polegares em que estamos todos conectados. Existem ferramentas digitais, como por exemplo as redes sociais, que vieram abrir um espaço onde todos se podem mostrar ao mundo na forma como desejariam ser vistos. Se por um lado, entre outras vantagens, elas vieram permitir a quem tem poucos recursos, a possibilidade de hoje divulgarem os seus trabalhos artísticos e/ou profissionais, por outro elas tornaram-se um autêntico circo de vaidades. 

Não querendo culpar o capitalismo de todos os males do mundo, visto que este não é uma identidade autónoma mas sim um sistema criado e alimentado pelo homem, não podemos negar que este é contraproducente na desconstrução de determinados estigmas, estereótipos, e preconceitos existentes na sociedade. Este sistema mantém aberto o espaço onde a beleza é um produto de consumo e de negócio, e como tal, as grandes indústrias através do marketing e da publicidade criam efeitos de sentido e operam na produção de verdades cristalizadas.

Na minha experiência pessoal, e como alguém que também sentiu na pele esse conflito interno durante a adolescência, fui fortemente influenciado pela cultura mediática e comecei a “adornar a alma com a beleza do corpo” quando deveria ser ao contrário. Comecei a identificar o meu Eu como corpo e a construir uma imagem que fosse socialmente aceita. Através das roupas, dos penteados, dos perfumes, e dos acessórios, encontrei uma forma de desviar das minhas imperfeições o foco do olhar alheio. Foi uma forma de camuflar a minha insegurança e sentimento de inferioridade, e de buscar uma sensação de igualdade para não me sentir rejeitado ou ofuscado pelo brilho dos outros. Depois de muitos anos a fazê-lo, dei por mim completamente escravo da vaidade e cada vez mais distante da minha verdadeira essência enquanto ser-humano. 

Se o meu objectivo fosse passar despercebido diria que fui uma espécie de camaleão, mas como o efeito pretendido era precisamente o oposto, mudei mais vezes de estilo do que um camaleão muda de cor em toda a sua vida. Essa inconstância é uma das silenciosas consequências do capitalismo, que fomenta a constante insatisfação e que nos impele a consumir cada vez mais em busca do novo e do melhor. Uma espiral sem fim que força o mundo a uma mutação cada vez mais acelerada, tornando-se cada vez mais difícil ao ser-humano conseguir acompanhar. 

Quem me conhece, ou de alguma forma tem acompanhado este blogue, terá uma ideia do quão importante foram os vinte oito anos para mim. Foi uma altura de viragem na minha vida e o início de uma viagem consciente de autoconhecimento, e uma das consequências naturais desse processo foi a libertação da vaidade que sentia e dessa identificação como corpo. 

A palavra vaidade tem sua origem do latim vanitas, vanitatis - cujo significado é “vacuidade; inutilidade; inconstância; futilidade; orgulho vão, o que é próprio do vácuo”, ou seja: vazio!”

Actualmente, não uso perfumes nem desodorantes, a roupa que tenho é escolhida tendo em conta a sua utilidade, priorizando a qualidade em detrimento da quantidade, e se me virem com algum acessório é porque ele carrega algum valor simbólico para mim. Não estou com isto a dizer que este é o modelo a seguir, é simplesmente o modelo que me serve e que hoje faz-me sentido. Não posso também afirmar que me libertei dessa vaidade por completo, e embora esteja a referir-me a ela num nível estético, esta também se pode manifestar num nível intelectual — ambas estão associadas ao nosso ego e trabalhar isso é um longo processo. 

Ultimamente, e em tom de brincadeira, costumava afirmar que em tempos fui um homem muito vaidoso e que hoje a minha única vaidade está no meu cabelo. Se por um lado acreditava nessa afirmação, por outro, sinto que não há nada de supérfluo em cuidar daquilo que já é nosso por natureza. Da mesma maneira que o ser humano deve descobrir, cuidar e trazer à tona o que de mais belo tem da sua natureza interna, o mesmo deve poder fazê-lo com a sua natureza externa — o seu corpo. Cuidar da nossa imagem não é ser escravo dela, se assim for, seremos só maquilhagem.

O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em acção.

Fernando Pessoa

A manutenção do bem estar físico e psicológico exige que cuidemos do nosso corpo e da nossa mente. Se ambos forem alimentados de forma consciente e equilibrada isso refletir-se-á naturalmente na nossa imagem. Adornar o corpo não reflecte a nossa alma, apenas disfarça o nosso vazio. 

Antes de testemunhar a experiência enquanto dador de cabelo, fiz esta longa reflexão por acreditar que ela tem uma profunda ligação a este meu gesto.

 

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Há cerca de 6 anos decidi voltar a deixar crescer o cabelo. Cansado de usar cera modeladora para afastá-lo da vista, de testar penteados que me favorecessem, de frequentar barbeiros, e de conversas de circunstância que lá se fazem, cheguei à conclusão que resolveria esse assunto deixando-o simplesmente crescer. Como já o tinha feito duas vezes no passado, embora por menos tempo, sabia que por herança genética tinha um tipo de cabelo que crescia rápido, forte e saudável. O próprio parecia pedir-me que não lhe apresentasse tesouras, tendo em conta as suas características. Em seis anos fi-lo apenas por duas vezes e só para cortar as pontas, tirando isso, não fazia planos para definir um limite de tamanho. 

Usando apenas um sabonete natural e uma solução de vinagre com água nas lavagens, e somente uma vez por semana, cuidar dele estava a tornar-se uma tarefa muito complicada. Para além do embaraço que era por vezes o simples vestir de um casaco, os nós que apareciam quando usava camisolas de capuz, ou as vezes em que o cabelo se prendia na porta do carro, tratar dele exigia muito tempo no banho, muita água e muita paciência para o pentear e desembaraçar. Para não falar do tempo que gastava nos dias de chuva em que precisava sair de casa e me via obrigado a usar o secador. 

Ao fim de tantos anos a cuidar dele, desenvolvi uma espécie de apego. Só de pensar em cortá-lo sentia como se me tivessem a arrancar um membro, e ironicamente cheguei a ter alguns pesadelos com isso. No mínimo estranho confesso.

Eu sabia que a qualidade do meu cabelo e o seu tamanho era algo incomum num homem, razão de ter sido inúmeras vezes elogiado e cobiçado. Se uma parte de mim gostava dessa atenção, a outra parte sentia-se desconfortável — era uma sensação agridoce. No entanto, a parte que gostava teve impacto na hora de colocar os aspectos positivos e negativos na balança antes de tomar esta decisão — não seria honesto se dissesse o contrário. Ocorreram-me pensamentos limitantes de que, se o cortasse, perderia também uma característica estética que me diferenciava e atraía o olhar alheio. Era tudo sinal de resistência ao abandono do que ainda me restava da velha vaidade. 

Para além disso, houve também um factor de carácter simbólico que pesou na minha decisão. Existe em mim um certo fascínio pelos povos indígenas, pela sua cultura, pelos simbolismos que carregam, e sobretudo pela relação simbiótica que mantêm com a natureza. Desejando entender porque razão sentia que se cortasse o cabelo perderia uma parte da minha força vital, descobri que para os chefes indígenas o cabelo longo era um prolongamento do sistema nervoso, o que lhes dava a capacidade de sentir melhor a presença de estranhos. Segundo alguns cientistas, o cabelo é composto por fios sensitivos, eles transmitem uma série de informações ao cérebro e ao sistema límbico, parte responsável pelas emoções. Não espero que me entendam nesta última parte, mas não seria um fiel testemunho se não o partilhasse.

Há alguns anos, através da experiência pessoal de um conhecido de infância, também partilhada nas redes sociais, fiquei a saber que era possível doar cabelo com a finalidade de serem produzidas cabeleiras destinadas a doentes oncológicos. A maior parte dos portadores de doenças oncológicas, como por exemplo o cancro, perdem parcialmente o seu cabelo durante os tratamentos, e se estes forem mais agressivos, dependendo do tipo de cancro e da sua extensão, chegam mesmo a perder a sua totalidade. Ao saber disso, mentalizei-me que se um dia voltasse a ter cabelo comprido esse seria o seu destino, e não um caixote do lixo onde por duas vezes acabou desperdiçado.

Quando comecei finalmente a equacionar a hipótese de cortar o cabelo, com setenta centímetros de comprimento e no limiar da minha paciência, lembrei-me desta antiga promessa. Se a praticidade que ganharia no meu dia-a-dia, ou a leveza que sentiria após esse desapego não eram ainda motivações suficientes, o saber que essa acção poderia devolver um sorriso a uma criança tinha de ser uma prioridade no meu pensamento. Comecei por procurar informações a respeito enquanto os cabeleireiros se mantinham fechados, devido às restrições em vigor na sequência da pandemia, e assim que reabriram dei então o primeiro passo, e também o maior, em direcção ao cumprimento desta minha promessa.

Em Portugal, onde gostaria de tê-lo feito, era possível doar o nosso cabelo à Liga Portuguesa Contra o Cancro ou entregar diretamente no IPO (Instituto Português de Oncologia), até que em 2015 anunciaram publicamente que deixariam de receber doações por falta de necessidade. No entanto, a partir das pesquisas que fiz, tomei conhecimento que existem várias associações internacionais, quer na Europa, quer em outras partes do mundo, que aceitam doações para a mesma finalidade. O tamanho das mechas de cabelo pretendido pela maioria das associações, são no mínimo 30 cm de comprimento, sendo que algumas aceitam um pouco menos. Podemos encontrar nos respectivos sites estas informações mais detalhadas e as indicações de como fazê-lo, pois existem alguns requisitos que precisam ser atendidos para que os cabelos doados sejam legíveis para elaboração de cabeleiras. (Ver link) É possível que algumas doações não venham a ser utilizadas, e esse foi o meu maior receio. Ainda assim, entre a dúvida do seu aproveitamento e a certeza do seu desperdício, é preferível a primeira. Deitar no lixo pela terceira vez estava fora de questão. 

Recomendado por uma amiga, o que me facilitou na escolha, enviei o meu cabelo para Little Princess Trust, uma associação que distribui cabeleiras gratuitamente a crianças e jovens até aos 24 anos, que perderam o cabelo devido a tratamentos contra o cancro ou outras doenças. Para além disso, esta associação tem apoiado o desenvolvimento de tratamentos do cancro menos agressivos e tóxicos, e colaborado para o aprofundamento da pesquisa das causas e do tratamento do cancro infantil.

Bem sei que este gesto em nada contribui para a cura da doença, pelo menos de uma forma directa, mas irá certamente contribuir para que uma criança ou um/a jovem possa recuperar parte da sua auto-estima e voltar a sorrir — o cabelo não cura, mas um sorriso pode ajudar. Acredito que o amor e a alegria são ingredientes indispensáveis para ajudar a vencer qualquer batalha. Numa sociedade como a que aqui descrevi, ter cabelo ganha um peso ainda maior no desenvolvimento de uma criança, e neste caso, não é um sentimento de vaidade, é um sentimento de pertença.

Posto isto, devo dizer-vos que não me custou absolutamente nada tê-lo feito, foi fácil e indolor. Todas as questões que levantei na indecisão de cortar o cabelo caíram por terra quando colocadas ao lado das questões de quem não o tem. Embora hoje sinta que essas minhas preocupações de indecisão eram banais, é perfeitamente natural e legítimo que as tenha tido. É legítimo que uma pessoa não se sinta segura em fazer o mesmo com seu cabelo, e está tudo bem, não se deve sentir culpada por isso. Seja um desafio, uma decisão, uma dor, ou um sofrimento, nenhum deles deve ser medido ou minimizado por comparação com o do outro. A intensidade das coisas depende muito da natureza, da bagagem, e do estado emocional de cada um.

Para concluir, devo dizer-vos que não me senti melhor pessoa depois desta experiência, senti-me sim mais leve e mais liberto, com menos quarenta centímetros de cabelo, de vaidade, e de apego. E na mesma medida, senti-me feliz por saber que esse pequeno gesto significará um grande sorriso no rosto de alguém.

05
Abr21

Nada é Verdade

Cada vez mais acredito e sinto que nada surge por acaso no nosso caminho. Cada ganho e cada perda, sejam elas experiências ou pessoas, podem ter uma função didática na nossa vida — uma estrada de autoconhecimento.

Para o bem e para o mal, e até isso é uma questão de perspectiva, cada escolha, cada renúncia, cada acção, cada reação, cada experiência, e cada pessoa, traz-nos um ensinamento, sobretudo quando o objecto em si carece dessa pretensão. Muitas vezes, esses ensinamentos são apenas percepcionados anos mais tarde, como por exemplo a música que me inspirou a escrever esta reflexão.

 

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Nada é verdade é o nome de uma música na qual participei com a criação do instrumental, e que conta com a letra e voz de um grande amigo. Foi o single de lançamento de um álbum que desenvolvemos em conjunto, também com o mesmo nome, e que lançámos em 2016. Naquela altura já era um dos temas do álbum que mais admirava, mas só hoje entendo a verdadeira razão dessa admiração. Vai muito além da sua estética sonora. Eu fui verdadeiramente tocado pela sua mensagem e, se na altura a compreendia num sentido literal, hoje sinto-a num sentido metafísico. Sinto-a como se sobre mim falasse, e como se tais palavras tivessem sido escritas pelas minhas próprias mãos. 

A metamorfose que se deu na minha vida aos vinte e oito anos trouxe-me a um lugar em que esta música passou realmente a fazer-me sentido. Foi como uma semente que sorriu para mim para que eu a guardasse, e para que mais tarde, no momento certo, pudesse finalmente germinar. Mas sobre sementes falarei noutra altura.

Este é o poder da arte, em que a interpretação de uma obra transcende o sentido original do seu criador a partir do momento em que ela é partilhada.

Voltando ao cerne desta minha reflexão.

Admito a possibilidade de que esta minha ideia seja uma tentativa vã de romantizar a vida para justificar a minha fome de sentido. Se assim for, prefiro alimentar essa fome para que não seja vencido por um qualquer tipo de niilismo que possa crescer dentro de mim. Pode parecer paradoxal, mas é o facto de saber que a vida não tem sentido, e que nós não temos nenhum propósito ou missão, ou como lhe preferirmos chamar, que me faz escutar e observar os sinais do universo e interpretá-los de uma forma que dê brilho e riqueza a esta minha breve passagem pelo mundo. Enquanto realizo essa prática e essa busca, reflete-se naturalmente nas minhas ações, no meu temperamento, na minha conduta, e todos à minha volta beneficiarão disso, inclusive eu próprio, porque a vibração que eu emano para fora retornará para dentro. É essa mesma busca que me dá o entendimento de que, tal como tudo na natureza, eu nasci para viver em simbiose e não como parasita.

Se existirá vida depois da morte? Se a “minha” alma reencarnará noutro corpo? Não sei, duvido de quem saiba e tampouco me importa. Embora o questionamento seja para mim uma prática diária, não são essas as questões que me ocupam. Viverei a ressignificar a vida no presente e enquanto ainda respiro, apenas para não enlouquecer e/ou viver refém da minha própria sombra. 

“O contrário da morte não é a vida, é o nascimento. Vida é o que existe entre esses opostos.” Eduardo Marinho

Ainda que não acorde todos os dias a pular de alegria, sou inteiramente interessado e fascinado pelo que é vida, e tudo o que me importa é tentar compreendê-la e amar todas as suas formas. Quanto à morte, não a temo mais, contudo, respeito-a. Saber da sua existência faz-me interessar ainda mais pelo que é vida. Trabalho internamente a sua aceitação e converto-a em combustível para viver, e não para sofrer — ela é, e carrega, apenas mais um ensinamento.

Dale Carnegie citou, no seu best-seller Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, uma frase de William James: “O princípio mais profundo da natureza humana é a fome de reconhecimento.” Embora subscreva esta sábia afirmação, eu trocaria a fome de reconhecimento pela fome de sentido. 

Ainda que nada seja verdade, esta é a minha verdade e a que me mantém vivo.

04
Fev21

Sou, Com Certeza, Uma Guitarra Portuguesa

Aqui há dias fui surpreendido com uma mensagem de um ex-professor, por quem nutro uma enorme consideração. Deu-me aulas de som no secundário e é hoje um guitarrista inteiramente dedicado ao Fado. Em conversa, por mensagens, confidenciei-lhe a minha admiração por saber que tocava um instrumento que tenho tatuado no peito e que, embora eu não o saiba tocar, uso-o como metáfora para descrever a minha natureza humana. Algo que o motivou a perguntar de que forma via eu a Guitarra Portuguesa para esse efeito.

 

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Eis a resposta:

Para mim, a Guitarra Portuguesa emite um som naturalmente triste e melancólico. Nenhum outro instrumento consegue conduzir, tão harmoniosamente, um poema triste até às profundezas da nossa alma. É tão rica na sua sonoridade como a nossa língua no seu vocabulário, característica que faz com que ambas consigam expressar com maior rigor os nossos sentimentos e as nossas emoções. Nem nos seus momentos solitários, na ausência de um poema, ela perde essa sua capacidade de expressão. Fechar os olhos e ouvir um solo de Guitarra Portuguesa, é ouvir uma história, é sentir uma vida. Quem nunca se deliciou a ouvi-la nas mãos do homem dos mil dedos, Carlos Paredes?

Apesar dessa condição característica, é também possível a partir dela expressar ou sentir (na minha condição de ouvinte) a nossa alegria, conforme se verifica em alguns Fados. No entanto, até nessa expressão alegre encontro resquícios de tristeza. Talvez se explique com a insegurança e a incerteza com que viviam os portugueses nos tempos em que o Fado ganhava forma.

Essa “Tristeza Alegre” é uma espécie de coquetel chamado Saudade, sentimento característico de um povo nostálgico e crente no destino. Ao contrário da visão comum da época, não creio no destino enquanto espectador de um caminho já traçado — o meu fado é apenas e simplesmente a hora da minha morte. Até que ela chegue, faço da Saudade a minha alegria nos raros momentos de tristeza. Vejo na Saudade uma incrível sabedoria, pois ao contrário de tudo na vida, que tendemos a qualificar como positivo ou negativo, ela não é passível de ser qualificada. A Saudade é recordar com gratidão o passado que foi e que não voltará a ser.

Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, […]

(Álvaro de Campos)

A Guitarra Portuguesa mostra-me como existe beleza na tristeza e como é importante aceitá-la e acolhê-la como parte da vida. Enquanto a sua chama dura, podemos aprender com ela, ressignificá-la e até usá-la em benefício da nossa criatividade. Estar triste não é ser-se triste, assim como estar alegre não é ser-se alegre — são ambos momentâneos, nada têm que ver com a felicidade.

“A alegria e o sofrimento são inseparáveis como compassos diferentes da mesma música.” (Herman Hesse)

 

 

Fotografia: Nuno Cacho c/ Slow J no Coliseu dos Recreios (Super Bock em Stock 2019)

18
Jan21

Mil Quilómetros de Autodescoberta (3/3)

Fazia já alguns anos que não nos víamos.

Combinámos numa esplanada perto de uma zona industrial, ponto de encontro habitual dos seus amigos e colegas, quando terminam os seus horários de trabalho. Ali estava eu, um novo elemento que se juntara, por curto tempo, àquilo que me parecia ser uma pequena família. Pareceram-me todos bons rapazes, nomeadamente o companheiro da minha amiga que se fez apresentar com muito boa energia, algo que me deixou feliz por ser o tipo de pessoa com quem ela se relacionava romanticamente. O teor das conversas que tivemos até se aproximar o pôr do sol foi apenas relevante a um nível pessoal, mas posso adiantar que foi uma tarde bem passada e em boa companhia.

Despedi-me de Santo André com o sentido de dever cumprido e uma grande satisfação por perceber que os elos de amizade nunca se quebram apesar da distância ou da regularidade com que se renovam. Serviu igualmente para relembrar o quanto aprecio visitar os meus íntimos mais distantes e de forma inesperada. Era quase noite em Santo André e senti que não seria esse o lugar onde eu queria repousar. Na falta de ideia melhor, tomei a decisão de partir até ao Algarve, minha terra natal.

 

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Desde os seis anos de idade que vivo em Lisboa e quase todos os anos costumava passar alguns dias em Albufeira com a minha família ou com amigos. Uma vez que interrompera essa tradição nos últimos dois anos, decidi juntar o útil ao agradável. Fiz-me novamente à estrada, em direcção a Faro, para assistir a uma actuação musical num bar. A estrela da noite era uma outra amiga, estando este título muito aquém daquilo que realmente representa para mim e com quem partilhei vários palcos no passado.

Ainda no início da viagem e já de noite, à saída de Santiago, entro numa estreita estrada com dois sentidos, repleta de curvas e contracurvas e sem qualquer tipo de iluminação. Tudo o que tinha à minha volta eram apenas árvores que mal viam. A luz dos faróis eram a única coisa que tinha a meu favor e raríssimos foram os carros com que me cruzei. No silêncio da noite e durante os largos minutos que passava sozinho naquela estrada, cheguei a recear o pior e a pensar como me poderia safar se de repente surgisse ali um contratempo. Um pneu furado, uma lâmpada fundida, uma curva mal feita, uma avaria electrónica, entre muitas outras possibilidades. Além disso, a bateria do meu telemóvel já não dava sinais de vida.

Perceber que pensar no assunto não impedia a sua concretização trouxe-me de volta ao momento presente. Cada minuto que passava a pensar em situações que poderiam acontecer e a encontrar em soluções para as mesmas era tempo perdido. Era tempo em que a minha mente estava projectada no futuro, enquanto o presente me passava entre os dedos. Não me traria qualquer vantagem ou utilidade.

O que sabemos do futuro é que um dia o nosso corpo perderá as suas funções vitais. A única garantia que temos é o momento presente e é nele que devemos estar. As adversidades que nele possam surgir são grandes oportunidades para conhecermos os nossos verdadeiros limites e aumentarmos a nossa capacidade de resiliência. A nossa sensação de controlo na vida é uma mera ilusão. Tal como referi anteriormente, apenas controlamos a forma como nos movemos. Não estou com isto a desencorajar ninguém a ser cauteloso, no entanto é necessário algum equilíbrio para que não nos tornemos numa pessoa sistemática. Demasiado planeamento bloqueia-nos a capacidade de lidar com imprevistos, gerando sentimentos de stress e ansiedade. Repito, esta viagem era também sobre autoconhecimento em eventuais situações de desconforto.

Ao permitir-me desfrutar da adrenalina do caminho até Faro, a minha única preocupação passou a ser apenas a de não atropelar nenhum animal que atravessasse a estrada no meio de toda aquela escuridão. Quando avistei a placa branca que mencionava o nome Algarve, respirei de alívio e pude finalmente relaxar. Certamente, há quem faça aquele trajecto com uma perna às costas, mas a quem lá passa de noite e sozinho pela primeira vez, posso dizer que é uma experiência um tanto sinistra.

Chegando finalmente a Faro, procurei um lugar onde pudesse jantar alguma coisa antes do concerto. Algo que foi bastante fácil, por comparação à viagem. Logo depois, dirigi-me até à cidade velha entre as Muralhas de Faro e encontro o bar onde a minha amiga estava prestes a actuar, ficando por ali a contemplar a sua incrível presença em palco, fazendo-se acompanhar de um estonteante sorriso, algo que proporcionava uma sensação familiar aos meus olhos e aos meus ouvidos. Após o concerto, ela fez-me uma visita guiada pela zona de lazer da noite de Faro, nada comparado com a diversidade da noite de Albufeira que tão bem conhecia e da qual fui um grande entusiasta durante muitos anos. Despeço-me com um abraço profundo e sigo para um parque de estacionamento frente à Ria Formosa, perto das muralhas. Não me restando grande alternativa face ao cansaço que sentia, acomodei-me dentro do meu carro para repousar até ao nascer do sol.

Acordado pela luz do sol e pelo ruído da agitação matinal, decidi voltar à estrada, rumando a Albufeira. Começando a faltar-me recursos, ideias, e com compromissos pendentes, sendo esta uma viagem de introspecção e de reencontro comigo mesmo, nada melhor que voltar às minhas raízes antes de regressar a Lisboa.

Pela primeira vez, caminhei sozinho pelo centro antigo de Albufeira, um lugar muito marcante na vida dos meus pais. O verão tinha terminado e ainda se fazia notar a imensa presença de turistas. Estávamos a poucos meses de enfrentar o início da pandemia que estamos hoje a viver. Também pela primeira vez, e devido ao calor que sentia, vi-me obrigado a tirar a roupa que me cobria o tronco, para que pudesse continuar a caminhar confortavelmente entre as bancas, lojas e restaurantes - à procura do bar que em tempos foi explorado pelo meu pai em conjunto com duas irmãs e a minha mãe, e sobre o qual ouvi muitas histórias desde a minha infância.

Era algo que nunca havia feito em público a não ser na praia, dado o complexo que tinha com o meu corpo e que se foi desvanecendo ao longo dos anos. Esse complexo era derivado da condição física com que nasci, fazendo com que o desenho do meu corpo fugisse um pouco do modelo padrão esperado. Na verdade, era mais pelo desconforto de me sentir constantemente observado e não propriamente por saber que carrego tais diferenças, porque a aceitação do meu corpo era algo que já me acompanhava desde a adolescência. No entanto, nunca deixei de utilizar mecanismos na tentativa de ser observado e tratado pelo que sou e não pela matéria que transporta o meu Eu, a minha consciência e a minha alma.

Enquanto escrevo isto, dou por mim a questionar se nos últimos quinze anos terei realmente sido acompanhado pela aceitação que mencionei ou se por um simples sentimento de conformismo. Creio mais na segunda hipótese.

Ao saber que nada poderia fazer para mudar esta condição, mostrou-se mais prático e menos castrante conformar-me com a realidade e não passar o resto da vida a remar contra a maré. Esta mudança de paradigma trouxe-me autoconfiança e lançou-me para a vida. Fez-me atrair uma série de coisas positivas como experiências, pessoas e conquistas. Passei a olhar com outros olhos para a minha imagem reflectida no espelho. Começando a focar-me nas coisas positivas, procurando identificar o que mais gostava e a imaginar formas criativas de ocultar o que menos gostava. Mas tudo isto teve um preço. Um preço que paguei sem saber e que só se fez notar anos mais tarde. Como uma espécie de despesa de manutenção que se faz subtrair todos os meses no saldo bancário e que os mais distraídos nem dão conta.

A aceitação, no verdadeiro sentido da palavra, dá-se quando abraçamos a realidade existente com todas as suas nuances no mundo interno e no mundo externo. Isto só começou realmente a acontecer comigo quando completei vinte e oito anos de idade e após ter passado por uma experiência que me fez colocar toda a minha vida em perspectiva.

Ao contrário da autoconfiança, que é baseada na noção de competência, a auto-aceitação, que indica uma profunda aceitação de nós mesmos com todas as nossas limitações e imperfeições físicas e/ou mentais, materializou-se quando, num acto espontâneo, decidi tirar a camisola em público ou quando me dispo neste testemunho. Faz parte de todo um processo que começou desde que vim ao mundo e que se tem tornado cada vez mais consciente e impactante nos últimos três anos, desde que mergulhei profunda e conscientemente nesta viagem de autoconhecimento.

Depois da longa caminhada pelo centro de Albufeira, encontrei o bar que anteriormente referi, o Daimlers. A nova gerência pouco ou nada se lembrava do espaço, agora inteiramente renovado à excepção da placa que mencionava o seu nome. Decidi voltar à estrada nacional e regressar a casa.

Durante a viagem, dei por mim com um sentimento de realização e de propósito cumprido. Apercebi-me de que, durante estes dias, não me ocorreu qualquer pensamento que me remetesse à relação tóxica com a substância de que falei no início e cujo término me motivou a embarcar esta aventura. Dei por mim com uma série de respostas encontradas e novas questões em aberto, e fui arrebatado por uma enorme vontade de me aventurar em mais experiências na companhia de mim próprio. Não me tornei misantropo nem tenho pretensões de ser um eremita, apenas dei mais um passo decisivo para quebrar o medo da solidão e conhecer a solitude.

Algo muito interessante e revelador que percebi nesta viagem foi que embora caminhasse sozinho, sempre me senti bastante acompanhado. Seria de esperar que quando estamos sozinhos por muito tempo e em lugares que desconhecemos, sentimos uma maior necessidade de socialização do que sentimos no nosso movimentado quotidiano. Na maioria dos sítios por onde passei as pessoas eram dotadas de uma maior predisposição para ajudar o próximo ou até mesmo para conversar com um estranho - o que muitas vezes resulta em surpresas agradáveis e que nos leva a novos lugares. O contrário também pode acontecer, é um facto. Para o evitar, devemos guiar-nos pela intuição. Não vivemos num mundo onde todos nos querem bem, vivemos num mundo onde o desejo de uns se sobrepõe à liberdade de outros. Porém, sabemos que não é somente com estranhos que podem acontecer surpresas desagradáveis. Quantas vezes vemos isso presente entre as nossas famílias e círculos de amigos!?

Cada vez mais acredito e sinto que somos todos parte de uma família humana.

Após quatro dias e mil quilómetros de movimento, regresso a casa mais conectado comigo e a saber um pouco mais sobre mim.

 

Revisão por: Inês Simões e Hugo Rebelo

 

Poderão também acompanhar visualmente esta viagem aqui.

05
Jan21

Mil Quilómetros de Autodescoberta (2/3)

Foi uma curta viagem de quarenta minutos em estrada nacional, com uma vista bem mais agradável e próxima da natureza do que teria sido pela auto-estrada. Raramente me cruzei com outros carros e, sendo uma estrada estreita, senti-me mais perto dos campos e quintas envolventes, muitas vezes com árvores muito próximas que criavam uma sombra agradável, ainda que intermitente. O calor ainda era intenso nos últimos dias de Setembro.

Apesar de ter desfrutado da viagem e da minha própria companhia, houve uma altura em que algumas questões que tinham surgido no dia anterior, quando bati à porta do casal amigo de Trindade, voltaram a aparecer. Talvez porque agora seguia inteiramente para o desconhecido. Quando deixei a cidade de Beja, deixei de ter um plano. O facto de não ir ao encontro de alguém familiar, de não conhecer o local para onde ia e de não saber se encontraria um sítio para estacionar e pernoitar, provocava-me alguma insegurança.

Tudo isto fez-me novamente questionar o sentido do que estava a fazer. Eu estava sozinho, sem conta em qualquer rede social e muito menos internet para partilhar fotografias que validassem esta minha experiência, ou uma mensagem que contornasse a ausência de uma companhia. É aqui que surge uma questão que coloquei a mim próprio e que hoje coloco a quem se atravessa no meu caminho, com o objectivo de provocar reflexão. Se estivesses sozinho no mundo, sem ninguém a observar-te, a vida que escolheste continuaria a fazer-te sentido?

Foi à boleia desta reflexão que segui viagem, enquanto apreciava a vista em cada quilómetro. Se não estivermos bem connosco e não soubermos desfrutar da nossa própria companhia, não conseguiremos relacionar-nos com o que nos rodeia de forma saudável. Usaremos pessoas e coisas sempre de uma forma egoísta, com o objectivo de satisfazer desejos, preencher vazios e suprir carências e necessidades. Este tipo de relação com o mundo externo faz com que nos apeguemos e tentemos possuir tudo aquilo que nos faça felizes.

Mas o que experienciamos, na verdade, é o prazer e não a felicidade. Segundo um provérbio Hindu, “o prazer é a sombra da felicidade”. Buscar o prazer no mundo externo é uma coisa natural ao ser humano, somos feitos de matéria mas é também a experiência sensorial que alimenta a nossa alma. No entanto, é importante que exista um equilíbrio nesta busca. Um equilíbrio que nos impeça de cair num desejo incontrolável, que nos salve da obsessão, da dependência, da morte da liberdade interior, do momento em que a busca, o desejo, se revela, afinal, um obstáculo à Felicidade.

A Felicidade é um estado permanente que deve ser procurado no mundo interno. Se a perseguirmos na dimensão física, estaremos constantemente inconstantes e insatisfeitos. No mundo externo tudo é efémero e impermanente. A um nível mais profundo acabaremos por entender que nada está realmente sob o nosso controlo a não ser a forma como nos movemos. Só é possível perceber isto quando olhamos para dentro e experienciamos a verdadeira consciência. Uma vez tocada essa consciência, acontece um processo de descoberta. A mudança será o resultado natural dessa descoberta. Pois ao contrário do mundo externo, a consciência é algo imutável e é nela que reside o nosso verdadeiro Ser. Nada melhor que a seguinte frase do romancista francês Jules Barbey d'Aurevilly para concluir esta minha reflexão: “O prazer é a felicidade dos loucos, enquanto a felicidade é o prazer dos sábios.”

Chegando a Mértola, e antes que o sol se recolhesse, fiz um reconhecimento desta vila museu com o objectivo de perceber que locais teria para visitar no dia seguinte. Para além disso, tinha o desafio de procurar um sítio apropriado para estacionar o carro e nele pernoitar.

Encontrei um lugar interessante junto ao rio e a uns metros de um hotel, imaginando a belíssima vista que teria ao acordar com os raios solares trespassando os vidros do meu carro. Igualmente atraente era a ideia de estar rodeado de árvores e não vizinhos. Mas ocorreu-me que poderia ter o sono interrompido pela presença das autoridades locais por estar estacionado no meio de nenhures, pelo que optei por ficar num parque destinado a auto-caravanas, a poucos metros dali, preservando a experiência que imaginei - substituindo as árvores por auto-caravanas.

Entretanto fez-se noite e fez-se fome. Após umas voltas pela vila, a minha intuição dizia-me que nenhum restaurante naquele lugar me iria providenciar uma refeição vegetariana. Escolhi aleatoriamente um deles e improvisei, pedindo uma sopa de legumes, um prato de feijão e arroz acompanhado com salada e umas fatias de pão alentejano. De volta ao parque de auto-caravanas, tento preparar a melhor cama possível recolhendo os bancos traseiros do carro e fazendo duas camadas de sacos-cama para ter algum conforto. Não foi, de todo, o melhor lugar onde alguma vez dormi. As duas camadas revelaram-se insuficientes para o conforto da minha (unicamente possível) posição fetal.

 

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Acordei como previa, numa luminosa manhã, e desloquei-me até ao lugar em que tencionava repousar na noite anterior para escutar o som da natureza, sem a interferência de vizinhos. Enquanto tomava o pequeno-almoço sou surpreendido por uma orquestra de chocalhos, tocados por um rebanho de ovelhas do outro lado da margem, em simultâneo com o chilrear de pássaros cuja espécie desconheço. Sentado junto de uma mesa de parque de merendas feito em material reciclado, e tentando focar o rebanho do outro lado do rio, dou conta de um incrível espelho horizontal que existia entre nós, reflectindo a silhueta das árvores e o rosto do sol.

Decidi registar em vídeo aquilo que se estava a revelar uma das melhores manhãs, senão a mais admirável, que alguma vez tive. Hoje reconheço a total inutilidade desse feito, pois os limites da tecnologia apenas permitem registar a dimensão estética de cada momento e não as que a transcendem. Permaneci sentado, imóvel e de olhos fechados, durante cerca de uma hora. Talvez estivesse a meditar sem a pretensão de o fazer. Para mim, foi um enorme feito. Sempre que me propus meditar, nunca consegui ignorar os pensamentos que me tentavam alcançar e que habitavam a minha mente mais tempo do que eu gostaria.

Li, algures, um livro em que o autor dizia que a mente, parte de toda esta incrível e complexa máquina que é o corpo humano, é uma ferramenta, e o acto de pensar deve ser feito apenas quando necessário. O problema é que na sociedade onde vivo e na geração a que pertenço, observo que perdemos o domínio desta ferramenta e nos tornámos escravos dela. Pensar tornou-se um estado natural permanente.

Um dia normal na cidade é passado na companhia de multidões, carros, aviões, anúncios, outdoors, mupis, cartazes, luzes, televisões, smartphones, montras, e muito mais. Do acordar ao adormecer, somos constantemente expostos a uma imensidão de imagens e informações para o nosso cérebro processar, fazendo do nosso subconsciente um depósito de conteúdo que condiciona o nosso estado de consciência e de presença - aquele que usaríamos para recuperar o controlo sobre a nossa mente ou abrandá-la. Caso contrário, tornamo-nos reféns da nossa própria mente e afogamo-nos num mar de pensamentos fortemente agitado, à maré do ambiente urbano e tecnológico pelo qual passamos, sem viver.

Após ter meditado, iniciei a caminhada para explorar a vila, de mochila às costas.

Ali a vida acontecia calmamente. Poucos carros circulavam pelas ruas e as pessoas que não caminhavam com serenidade, repousavam nos bancos espalhados pela vila. Ao longo dos inúmeros lugares estrategicamente pensados para contemplar a incrível vista no decorrer da subida até ao Castelo, a distinção entre turistas, trabalhadores e moradores era feita somente pelo traje com que cobriam os seus corpos.

Após explorar cada miradouro, cheguei ao Castelo de Mértola, situado na confluência da Ribeira de Oeiras com o rio Guadiana. Visitei a alcáçova do Castelo onde se encontra o Campo Arqueológico de Mértola e onde podemos ver as ruínas de um bairro muçulmano. Visitei a Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, único exemplar de arquitetura religiosa islâmica remanescente no país e, por último, o cemitério, com uma incrível vista para a ponte da Ribeira de Oeiras. Ainda no Castelo, ao conversar um pouco com uma funcionária que se encontrava na sua pausa de cigarro, apercebi-me que ainda havia alguns museus que eu poderia ter visitado, mas não tencionava passar o tempo em lugares fechados, muito menos com bilheteira, pois parte do desafio era utilizar o mínimo dinheiro possível, tirando o máximo partido do que teria à minha mercê.

Pelo meio da tarde, senti que já tinha retirado de Mértola o que havia para retirar. O propósito desta viagem era estar em constante movimento, sem permanecer no mesmo lugar mais do que uma noite.

Depois de algum tempo a pensar qual seria o meu próximo destino, decidi rumar em direção a Vila Nova de Santo André, para visitar uma amiga muito especial dos meus tempos de faculdade, algo que já adiava há muito tempo. Depois de confirmada a disponibilidade dela, voltei à estrada nacional, aproveitando para descobrir algumas vilas e aldeias pelo caminho. Ao chegar a Santiago do Cacém, uma cidade um pouco mais desenvolvida e movimentada, comecei a desconfiar que, com o pouco tempo que tinha, não teria muita sorte em encontrar um lugar seguro e tranquilo para passar a noite no carro. Adiei essa resolução para depois e concentrei-me em chegar a Santo André...

 

Revisão por: Inês Simões e Hugo Rebelo

 

Poderão também acompanhar visualmente esta viagem aqui.

10
Dez20

Mil Quilómetros de Autodescoberta (1/3)

Num passado não tão longínquo, eu costumava afirmar que entrar no carro e viajar sem destino era uma das coisas que mais adorava fazer. Sobretudo no silêncio da noite, na companhia de mim próprio e por impulso da alma. Nessa altura não entendia a razão dessa vontade súbita que surgia quando menos esperava. Estaria eu a fugir de algo? Ou seria uma ávida vontade de Ser, de descobrir, de me perder, de me encontrar? Talvez tudo isso e muito mais. Verdade seja dita. Nenhuma dessas viagens foi para além das fronteiras do distrito de Lisboa.

Que aventureiro!

Dizia eu, para mim próprio, há um ano, e num sarcástico tom enquanto questionava a profundidade dessa minha vontade.

Se te julgas um espírito livre e gabas essa tua vontade de viajar sozinho e sem destino, por que nunca foste além dos limites da bolha da Estremadura? Qual é o medo que te acobarda? Deixa-me adivinhar!

Solidão…

Se algum dia tocares o limite dessa bolha, ousares furá-la e permaneceres fora dela por mais do que uma noite, quando voltares, quero que me contes.

Quero que me contes como foi conviver contigo, com o silêncio, com o vazio, com os teus pensamentos, com os teus fantasmas e com os teus medos. Se, quando voltares, desejares novamente partir, então poderás dizer que é das coisas que mais adoras fazer.

Na manhã do dia 24 de setembro de 2019, ainda o sol não tinha nascido, eu iniciava uma das aventuras mais desafiantes da minha vida. Entrei no meu carro com o depósito cheio, levando na bagageira dois sacos-cama, um cobertor, uma mochila que guardava pouco mais de duas mudas de roupa, uma escova para o cabelo, uma pasta dentífrica, um sabonete.

No dia anterior, tinha decidido romper com aquilo que se estava a revelar o início de uma relação tóxica e compulsiva com uma substância que a maioria de nós conhece como haxixe, algo que pode tornar-se o caminho mais fácil para a meditação e ser a eterna companhia de almas solitárias. Falarei sobre esta minha relação noutra ocasião.

Parti em direcção a Trindade.

 

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Trindade é uma antiga aldeia remota que pertenceu ao distrito de Beja e cuja população se reduziu a um terço daquilo que outrora foi. Escolhi este como o primeiro destino desta aventura, motivado por uma memória que já há três anos me assaltava os pensamentos - desde que sonho viver numa pequena comunidade num lugar que tivesse escapado do envenenamento constante da terra e do homem, onde eu pudesse respirar profundamente, escutar o silêncio e observar o vazio.

Fabricamos ruído para preencher o silêncio e informação para preencher o vazio. Temos perdido Sabedoria ao privilegiar o Conhecimento. Não estou a sugerir que permaneçamos ignorantes, mas este desequilíbrio espelha o estado em que se encontra a humanidade. Ao privilegiar o Saber, adormecemos o Sentir.

Faço esta reflexão porque tenho observado que esse Conhecimento não nos tem tornado mais esclarecidos, mas sim mais confusos. A Sabedoria de um pensador está em não alimentar ilusões sobre o próprio saber. Tal como Sócrates, “Só sei que nada sei, e o facto de saber isso, coloca-me em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.”

Voltando à viagem:

Conheci esta aldeia nos meus tempos de infância, quando o meu pai decidia levar-nos em família para gozar o período de férias de Verão fora da cidade onde permanecíamos durante todo o ano. O habitual era passarmos duas semanas no Algarve, lugar onde os meus pais viveram uma parte da sua história, da qual eu sou fruto. Mas, certo dia, o meu pai tomou a iniciativa de desviar o caminho com o intuito de visitar um velho amigo dos seus tempos de serviço militar obrigatório. Não me lembro que idade tinha eu nessa altura mas recordo-me de termos lá voltado quando tinha dez anos e não foi só de passagem. Tivemos uma estadia de uma semana na casa de família deste seu amigo, que nos recebeu com grande hospitalidade, cedendo-nos o quarto da sua filha mais nova que curiosamente tinha a mesma idade que a minha irmã, tal como o seu irmão mais velho tinha aproximadamente a mesma idade que eu.

Era uma casa rústica. A porta principal dava para uma pequena rua onde ficava o café do qual o amigo do meu pai era proprietário. A porta traseira dava para uma série de quintais onde os habitantes da aldeia produziam os seus legumes e albergavam os “seus” animais, que lhes fornecem alimento. Por detrás dos quintais existia um enorme descampado onde podíamos contemplar o horizonte, parecendo que estávamos sozinhos no mundo e que tudo o que havia para estimar e valorizar estava ali, dentro daquela aldeia.

Recordo-me de passar as tardes alternando entre o café, agora fechado, ponto de encontro das pessoas que ali viviam, e os passeios pela aldeia explorando cada cantinho que ali havia por descobrir. Recordo-me de brincar nas escadas da igreja com as crianças que ali conviviam livremente e longe de qualquer tipo de tecnologia que estimulasse o seu isolamento. Tudo o que havia à nossa mercê eram bicicletas, bolas de futebol, as pipas que comprávamos no café para petiscar, os nossos corpos e a nossa fértil imaginação. Recordo-me dos finais de tarde quando o meu pai regressava com o seu amigo dos serões de pesca e de caça habituais daquelas gentes, estava eu sentado no sofá a ver os filmes preferidos do filho do seu amigo, ou a brincar no quarto com sua coleção de bonecos, até chegar a hora de nos reunirmos à mesa para desfrutar de uma bela refeição de comida orgânica em família.

Vinte anos depois, e após 230 quilómetros de viagem pela estrada nacional, encontro-me novamente em Trindade.

Estranhamente, ao chegar à aldeia, senti-a familiar. No início da rua onde se situa a dita casa, perguntei pelo amigo do meu pai a duas senhoras idosas, que se encontravam perto de uma das duas paragens de autocarro que lá existem. De forma contida, responderam-me que não o conheciam. Avanço mais um pouco e ao estacionar perto da casa que então reconheci, junto dos humildes quintais agora reduzidos a um terço, vejo um senhor com um ar muito simpático e dirijo-lhe a mesma pergunta que havia feito às senhoras desconfiadas. Depois de uma curta troca de perguntas e respostas, o mesmo acabou por me confirmar que a família que eu procurava vivia, ainda, na mesma casa. Acompanhou-me amistosamente até à porta e chamou em voz alta pelo nome que eu esperava.

Foi neste momento que surgiram na minha cabeça as primeiras questões acerca desta aventura. Durante os segundos em que aguardava por alguém que me abrisse a porta, perguntava-me o que estaria ali a fazer sozinho, se me iriam reconhecer, qual o propósito e o sentido daquela visita e sobretudo o que iria eu dizer após tantos anos, receando gerar ali um momento constrangedor.

Creio que estas são dúvidas comuns nos dias de hoje, entre os meus semelhantes. Durante a nossa formação enquanto seres humanos no mundo moderno, temos cada vez mais ferramentas e condições para nos colocarmos numa posição de conforto perante vários aspectos da vida, e não existe nada de errado nisso. O problema surge quando essas dúvidas nos mantêm nessa posição de conforto, impedindo-nos de nos relacionarmos uns com os outros. Existe uma enorme pressão para correspondermos a determinado perfil na sociedade que construímos e isso alimenta dentro de nós o medo de sermos quem somos, o medo de não corresponder às expectativas dos outros, medo do que poderão pensar de nós, medo de sermos julgados e de não sermos aceites.

Eu considero que viver no medo é limitar a nossa existência, a nossa estrada de autoconhecimento e a nossa evolução enquanto consciência individual e universal. Criamos, ao longo da nossa vida, a nossa rede de suporte, a nossa tribo, composta por elementos da nossa família e/ou uns quantos amigos. Só aí nos sentimos realmente seguros para sermos quem somos sem o perigo iminente de sermos rejeitados, enganados ou magoados. Qualquer pessoa que se apresente no nosso caminho e não faça parte da nossa tribo está sujeita a uma série de etapas até conquistar a nossa confiança. Isso faz com que, inconscientemente, qualquer desconhecido seja uma ameaça para a nossa confortável posição. Embora seja um mecanismo de sobrevivência, condiciona a nossa experiência humana, na medida em que nos torna cada vez mais fechados e individualistas.

Preciosas são as redes sociais, que nos permitem unir estes dois mundos. Através delas, tanto podemos pintar uma versão idílica de nós mesmos e sermos aceites, como podemos permitir-nos ser quem realmente somos - com todas as nossas limitações e qualidades, pois os efeitos negativos que possam surgir dessa transparência são atenuados pela distância física e contornados com um simples clique. Podemos desfazer uma amizade com a mesma facilidade e rapidez com que a criámos.

Abriu-se a porta traseira da casa e por trás dela estava a companheira do amigo do meu pai, que me encarou com alguma estranheza. Revelo a minha identidade, à qual ela responde chamando pelo seu companheiro. Quando ambos se apresentam à minha frente, assim que ela lhe comunica as pistas que lhe dei, numa mistura de espanto e alegria percebem que quem os visita é o filho mais velho do seu antigo amigo da tropa.

Confesso que não reconhecia aqueles rostos que já apresentavam alguns sinais do tempo, mas rapidamente me fizeram sentir bem-vindo. Para além da visita improvável e inesperada, ficaram ambos muito surpresos por me verem ali sozinho, uma vez que me recordavam como uma criança com necessidades especiais devido à minha condição física. Uma vez feito o reconhecimento, decidi surpreender o meu pai, ligando-lhe a comunicar onde e com quem estava. Passei o telefone ao seu velho amigo e reergui a ponte entre ambos, anteriormente desfeita pela alteração de números de telefone.

No final da chamada fui convidado a entrar na sua humilde casa e sugeriram-me que ali ficasse para jantar. Nada me daria mais prazer naquele momento do que a honra de aceitar tal convite. Comuniquei que era vegetariano e tivemos um ponto de partida para uma conversa que se estendeu durante horas enquanto me preparavam amavelmente uma alternativa para mais tarde os acompanhar numa refeição, na mesma mesa que há vinte anos partilharam com a minha família.

Recordámos a nossa estadia por lá quando eu ainda era inocente e partilhámos o que havíamos feito durante estes longos anos. Falámos sobre a evolução dos tempos e das transformações que se sucederam na aldeia e, na companhia de uma garrafa de vinho tinto alentejano, o amigo do meu pai, mergulhado em nostalgia, contou-me histórias que viveu com ele nos tempos de serviço militar enquanto me revelava o seu álbum de fotografias que figuravam aqueles momentos. Ali fiquei, a conhecer um pouco mais sobre o meu pai e a razão daquela ligação existir. Foi naqueles olhos, naquele álbum e em toda aquela recepção que eu relembrei o verdadeiro significado da palavra amizade e da força que ela tem dentro de cada um de nós.

Ao aproximar-se a hora de jantar chega então o seu filho mais velho, que teve a mesma reação que os seus pais ao ver-me ali sentado à mesa. Reconheci-o de imediato, o seu rosto não sofrera grandes alterações, apenas o seu corpo apresentava sinais de maturidade. Vivia com os pais, ao contrário da sua irmã que decidira viver no centro de Beja, onde se formou e agora trabalha como fisioterapeuta, algo que me deixou curioso. Mas o que me deixou profundamente intrigado foi a escolha do seu irmão, que me confidenciou não ter pretensões de sair da aldeia. A sua humilde ambição é construir família com a sua namorada e comprar uma casa perto dos seus pais, no lugar onde cresceu e sempre viveu. Espero sempre que um jovem que resida num lugar como Trindade deseje um dia viver numa grande cidade como Lisboa, onde tudo acontece e onde as oportunidades são maiores, sobretudo a nível profissional.

Eu não tinha a noite planeada. Apenas pensava dormir no meu carro durante toda esta aventura. No entanto, após o jantar, e por cortesia do casal amigo, pernoitei naquela casa, no mesmo quarto que outrora me cederam, uma vez que a sua filha já lá não vivia. Na cama e de cabeça repousada na almofada, entro num momento introspectivo, assimilando tudo o que acabava de viver naquele dia e reconhecendo o quão importante se revelou toda aquela experiência.

Na manhã do dia seguinte e depois de uma óptima noite de sono, ao dirigir-me até à casa de banho para tomar um duche, deparei-me com a senhora da casa. Na cozinha, ela preparava um pequeno almoço para partilharmos, visto que só entraria para o serviço no final da manhã. Já na mesa, enquanto partilhávamos umas torradas de pão alentejano, conversámos mais um pouco, até que ela me questiona qual seria o meu próximo destino. Respondi-lhe que não sabia, apenas tinha uma vaga ideia. Na verdade, é esta a minha forma de levar a vida.

Nesse instante, sugeriu-me que visitasse Mértola, que não ficaria muito longe da cidade de Beja e que seria certamente do meu agrado. Depois de me dar uma breve descrição da sua passagem por lá e do que eu poderia encontrar, decidi abraçar aquela sugestão e prosseguir com a minha aventura.

Durante a minha despedida, disse-me que eu poderia ficar mais um pouco, pois ainda faltavam algumas horas para ela sair em direção ao seu local de trabalho. Mas eu tencionava aproveitar a manhã para re-visitar calmamente a aldeia, caminhando pelos meus próprios pés. Ainda não tinha tido oportunidade de fazê-lo desde que tinha lá chegado. Para além disso, ainda me aguardavam alguns quilómetros de viagem e eu pretendia explorar o local onde iria passar a noite antes que o sol se pusesse. Despedi-me educadamente com um abraço, tentando demonstrar através dele todo o meu apreço e toda a minha gratidão. Prometi lá voltar e segui caminhando na aldeia com a minha câmera, registando algumas imagens para depois partilhar com o meu pai, embora tenham sido os meus olhos a focar a maior parte do que eu observava.

A caminho do descampado atrás dos quintais, encontro um senhor vestido de uma forma um pouco intrigante, entre as suas ovelhas e frente a um dos pouco quintais que ainda restavam, afiando a sua cana-da-índia. Troquei algumas palavras com o senhor, João, que acedia com um ingénuo sorriso e uma contagiante calmaria - perfeitamente alinhada com o tempo e espaço em que nos encontrávamos. Explicou-me um pouco sobre as características do tipo de cana que trabalhava e eu, enquanto o escutava atentamente na minha ignorância, pedi-lhe autorização para fotografá-lo, na tentativa de conservar aquela imagem que me fascinava e se distanciava de tudo o que me era familiar na minha cidade.

Enquanto passeava pelo centro da aldeia, reparei que tudo se encontrava devidamente cuidado e as cores das paredes das casas sobressaíam fortemente devido ao reflexo da luz natural que ali incidia. Lembro-me que durante a caminhada e a cada esquina que virava, procurava pessoas a quem pudesse arrancar histórias e encontrar a vida que ainda existia para além dos cães que por ali passeavam livremente, sem trelas e sem vigília, das ovelhas do senhor João, dos galos que me despertaram e do verde que ali florescia. Cruzei-me com pouco mais de meia dúzia de pessoas e a maior parte eram trabalhadores de construção civil que não viviam ali e que remodelavam casas que permaneciam sem vida durante a maior parte do ano.

Os mais jovens partiram em busca de um estilo de vida que eles consideram melhor, em busca de novas oportunidades. Uns para as grandes cidades, outros para fora do país. Apenas regressam pontualmente nos seus períodos de férias, ora para fugir um pouco das vidas que escolheram e “recarregar baterias”, ora para visitar alguns membros da família - muitos dos quais já chegaram ao fim da sua jornada. Entre os idosos que gozam do último capítulo das suas vidas, muitos permanecem fechados nas suas casas, abrigados do sol e ocupando os seus dias descansando no sofá ou entretidos com a Caixa Mágica que os transporta para um outro mundo, outra realidade. Na TV, procuram abstrair-se do sentimento de solidão que carregam, fruto de um vazio interior resultante da desertificação das zonas rurais, da distância que os separa dos seus entes queridos e do sentimento de inutilidade, provocado pela chegada da reforma ou da perda gradual das suas capacidades físicas. É também na TV que julgam conhecer melhor o local para onde foram - e que vida escolheram - os seus descendentes. Na verdade, apenas vislumbram o mesmo véu de maya, o kitsch da vida ideal que, fazendo parecer medíocres as vidas que viviam, persuadiu os seus descendentes a partir em busca daquilo que todos os habitantes da Caixa já parecem ter, a Felicidade.

Não querendo sugerir que nos contentemos sempre e somente com o que temos, questiono-me: Porque será que queremos sempre mais? Nem sempre o mais significa melhor. Apesar de toda a evolução e conforto que alcançámos enquanto Humanidade (e pelos quais pagamos um preço muito elevado) parece que continuamos permanentemente insatisfeitos e inconstantes. Não estaremos nós a procurar a felicidade nas coisas erradas?

Ainda em Trindade, fotografei um cão que carregava uma herança genética de heterocromia, apresentando um belíssimo par de olhos de cor distintas, castanho e azul. Ostentava um belíssimo pêlo médio preto e branco e, apesar de se apresentar sem coleira, notava-se claramente que tinha alguém que cuidava dele. Esse alguém era um senhor de cabelo grisalho e aparentemente bem arrumado, cujo nome a minha memória apagou, que surgiu no meu caminho aquando da fotografia.

Este senhor abordou-me precisamente quando o seu cão se aproximou com um ar ternurento, aguardando alguma acção da minha parte. Ele tinha o focinho colado no chão, entre as patas dianteiras, as de trás completamente direitas, rabo empinado e cauda levantada. O seu tutor disse-me que ele queria que eu atirasse uma pedra, fazendo uma pequena demonstração. O cão correu alegremente por ter conseguido o que pretendia e curiosamente trouxe de volta a pedra colocando junto aos meus pés, ao invés dos pés de quem a atirou. Durante aproximadamente uma hora, enquanto eu atirava continuamente a pedra a uns metros de distância, iniciei uma conversa agradável com o senhor, justamente acerca das vidas passadas e actual da aldeia.

Ao som do sino da igreja, reparei que o relógio marcava o meio dia e preparei-me para me despedir de Trindade. Dou mais uma curta volta pela aldeia, desta vez de carro, e sigo em direcção à cidade de Beja para comprar alguns mantimentos e aproveitar para visitar a cidade romana, que ainda não conhecia.

Embora em Beja a minha experiência não tenha sido tão profunda, foi interessante conhecer a cidade na perspectiva de um turista, explorando sozinho e de mala às costas os recantos daquele lugar marcado pela história. Passei pelo convento de Nossa Senhora da Conceição, pela Praça da República e entrei no Castelo que alberga a maior torre de menagem do país, com cerca de quarenta metros de altura. Decidi não subir a torre, por uma questão de segurança, ficando-me pelo topo das muralhas - local que já me proporcionava uma incrível vista da cidade. Pelo que sei, não sendo um grande conhecedor da história de Portugal, é uma cidade cujos edifícios emblemáticos foram reduzidos a metade. Também percebi, através das figuras em stencil nas paredes das ruas, que foi um lugar fortemente afectado pelo regime fascista.

O que chamou a minha atenção nesta bonita cidade foi o facto de ter sido erguida no topo de uma colina, rodeada por um vasto campo que marca a fronteira entre a vida urbana e a vida rural. Uma cidade renovada e bem cuidada, com uma invejável serenidade e sem o enorme fluxo de pessoas a circular como acontece em Lisboa. Existe um belo equilíbrio entre a construção do homem e a natureza. Seria, sem dúvida, uma cidade onde não me importaria de, um dia, viver. Quem conhece bem a gastronomia portuguesa consegue perceber que não é fácil ser-se vegetariano no Alentejo. Entregue ao improviso, comi uma sopa numa taberna e rumei em direção a Mértola...

 

Revisão por: Inês Simões e Hugo Rebelo

 

Poderão também acompanhar visualmente esta viagem aqui.

 

30
Mar20

Não Como Animais e Não Sou Vegan

 

Antes de abordar este tema quero começar por dizer que este texto tem como único propósito a partilha do meu testemunho a respeito de uma das decisões mais importantes da minha vida: a transição para uma alimentação inteiramente vegetariana - e o impacto que esta teve no meu quotidiano e transformação interior.

As razões pelas quais decidi fazê-lo serão, naturalmente, encontradas no decorrer deste meu desabafo, mas, especialmente, por acreditar que as experiências de cada um poderão de alguma forma vir a ser úteis para alguém (da mesma forma que ao longo dos anos tem sido útil para mim conhecer as histórias e as experiências das pessoas com quem partilho um lugar no mundo).

 

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Como é costume dizer-se, “o tempo voa”, e passaram hoje dois anos desde o dia em que eliminei, por completo, qualquer ingrediente de origem animal da minha alimentação. Como tantos outros, fui impulsionado pela visualização de um documentário, e antes que alguns se apressem a colocar-me um rótulo, como eu igualmente faria há dois anos, permitam-se continuar a ler o texto e perceberão que o impacto que este teve em mim, transcendeu a barreira das modas a que estamos habituados.

Tudo começou numa serena tarde do período sabático que há dois anos decidi tirar (por razões que mais tarde falarei noutro tópico), enquanto procurava um documentário interessante para ver dentro da grelha da Netflix. Não sei que forças me impeliram a escolher algo relacionado com os efeitos negativos da indústria pecuária, mas certamente uma curiosidade já pairava sobre a minha consciência, pelo que decidi dar-lhe vazão naquele momento. Não consigo também precisar o nome do documentário em questão, nem quais os aspectos principais em que se focava (à parte das imagens de tortura comuns a todos eles) porque, ainda nessa mesma tarde, movido pelo choque e pela vontade súbita de saber mais sobre o assunto, mergulhei num serão de documentários que se estendeu até o YouTube. Noutra altura da minha vida, eu não passaria do primeiro - e quem sabe se chegaria até ao fim. Cada vez mais acredito que existem alturas certas para absorver determinadas coisas e que nada nos deve ser imposto. Falarei disto mais adiante.

Não me lembro do que almocei nesse dia, mas posso garantir-vos que o meu jantar foi inteiramente vegetariano e que todas as minhas refeições até hoje mantiveram esse requisito.

Tendo em conta a posição que actualmente tenho a respeito da exploração de todo o reino animal para satisfação das necessidades, e não necessidades, do Homem, seria ético da minha parte dizer-vos que foram as imagens de crueldade e sofrimento causado aos animais que me fizeram tomar esta decisão, literalmente, do dia para a noite. No entanto, estaria a mentir-vos se o fizesse, não querendo desvalorizar o impacto das imagens e a tristeza e sentimento de culpa que dentro de mim fizeram brotar. Foram, sim, as evidências científicas que fui descobrindo, de que afinal, toda esta máquina incrivelmente complexa que é o corpo humano, não foi desenhada para caçar, comer e digerir outras espécies sencientes e seus derivados (embora possua dentro de si, como mecanismo de sobrevivência, todas as capacidades para tal). Antes do Homem desenvolver a arte do cultivo, foi certamente por essa especial característica e habilidade física e intelectual, que faz de nós, humanos, não a espécie mais forte, mas a mais completa e resiliente, que conseguimos controlar o fogo, criar armas para inverter a nossa posição de presa perante alguns animais e resistir às mudanças climáticas (como a era do gelo que o Homem de Neandertal enfrentou).

Actualmente, com todas as condições físicas, intelectuais e tecnológicas asseguradas, já não necessitamos de nos apropriar de outras espécies para produzir bens essenciais ou, sobretudo, para nos alimentar. Esse hábito só nos tem prejudicado em larga escala, reflectindo-se não só no meio ambiente, como também na nossa saúde, através da quantidade de doenças crónicas que têm vindo a crescer em pleno século XXI.

Quanto mais informação eu acumulava, filtrava e absorvia, maior era a fome de conhecimento; e quanto mais a saciava, maior era a revolta que começava a crescer dentro de mim. Comecei a sentir que me tinham vendido uma mentira a vida toda e que muitos dos nossos hábitos do quotidiano são afinal sustentados por falsas crenças. Crescendo a agir sob o "efeito manada", sem questionar, por exemplo, por que raio comemos cereais com leite ao pequeno-almoço, que é nada mais nada menos do que uma combinação de um produto altamente processado, rico em açúcares de absorção rápida, gorduras, calorias e diversos aditivos, com uma secreção nutritiva de um mamífero de outra espécie animal, que tem na sua composição todos os elementos necessários para nutrir as suas crias enquanto estas não conseguem digerir alimentos sólidos nem alimentar-se de forma autónoma. Já para não falar de todo o processo da indústria do leite, desde as condições a que os animais são expostos, passando pela manipulação cruel e abusiva a que estão sujeitos, até à bonita e inocente embalagem que alberga o homogéneo e sedutor liquido branco que tanto e tantos nos habituámos a consumir e que, durante anos, foi sinónimo de saúde e bem-estar. Como dizia Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazi, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Isto é apenas a ponta do icebergue. Mas não pretendo transformar isto num artigo científico, alargando-o para o consumo de outros derivados de animais ou de partes do seu corpo, usei este pequeno exemplo para ilustrar que este tipo de consumo já não é uma questão de sobrevivência (pelo menos para o mundo ocidental), mas sim uma prática culturalmente entranhada nas nossas sociedades e que tem sido perpetuada durante gerações.

Apesar de ter passado o resto da semana a ver vídeos de palestras e a ler artigos científicos e testemunhos pessoais, tudo aquilo a que fui exposto nesse dia, e no período sabático em que me encontrava, foi mais que suficiente para não conseguir olhar para a comida com os mesmos olhos. Não recomendo a ninguém fazê-lo da forma que fiz, porque embora o nosso corpo funcione do mesmo modo, o nosso organismo não absorve nem reage a determinados alimentos e mudanças de hábitos de forma igual. Tudo o que fiz foi aprender a escutar o meu corpo e a forma como ele ia reagindo de dia para dia a cada refeição, uma habilidade por muitos esquecida, talvez por vivermos num mundo cada vez mais acelerado e industrializado, onde o conhecimento tem aumentado em proporção à sabedoria que se tem perdido.

Embora pareça ter sido insensato e irresponsável da minha parte, a verdade é que fiz os possíveis para que esta transição não se revelasse um problema na minha saúde. Fiz exames de rotina nessa altura e também um ano depois, para poder comparar e precaver-me, embora em momento algum tenha sentido que a minha saúde estivesse em risco, pois acreditei, desde o primeiro dia, que o que estava a fazer era o mais correcto a nível biológico.

Apesar de naquela altura, devido à inexperiência, as minhas refeições não serem tão variadas como as que actualmente preparo, tinha um certo cuidado para não cair no típico arroz com feijão, nos tempos em que a preguiça tentava levar a melhor. Muitos dos erros comuns de quem se inicia nesta aventura é acabar por se render à tentação dessa combinação mais vezes do que é o suposto, ou à de uma simples salada que, apesar do seu valor nutritivo, apresenta um défice de muitos outros nutrientes de que o organismo tanto necessita, trazendo a longo prazo sérios problemas para a saúde.

De imediato, deixei de “sofrer” de prisão de ventre, algo que era tão natural para mim desde tenra idade. Senti que o meu aparelho digestivo funcionava na sua plenitude, proporcionando-me uma maior sensação de leveza e energia após cada refeição.

Adoraria partilhar aqui uma série de melhorias no meu organismo mas, no meu caso particular, esta foi a mais impactante e a que a minha memória me permite retratar mais fielmente, para além dos resultados animadores dos exames de rotina que havia feito um ano depois, em comparação ao anterior, mesmo que no primeiro não existisse nada de preocupante. Isto foi suficiente para provar a mim mesmo que tinha tomado a decisão certa e que me encontrava num bom caminho.

Felizmente, as vantagens que esta decisão trouxe à minha vida foram para além dos resultados no meu corpo. Aprender a cozinhar foi uma delas, pois até à data, as visitas de médico à cozinha eram alternadas entre o frigorífico e o microondas, excepto raras ocasiões em que a minha mãe não podia dar conta das refeições, e lá teria eu de dar atenção ao fogão para preparar o clássico prato da casa: esparguete com bife de peru. Era o máximo que a minha preguiça e paixão pela culinária permitiam, sem esquecer os hambúrgueres e ovos estrelados no banco de suplentes, caso o peru estivesse lesionado.

Sim, nesta altura era o quase-trintão que retorna à casa de família, história que muitos conhecem, embora neste caso fosse devido a razões muito além das económicas.

Uma vez que propor algum vegetarianismo à minha mãe seria como sugerir-lhe que aprendesse mandarim e mudar a ementa aos meus irmãos seria como, na minha infância, obrigarem-me a comer ervilhas, tive de accionar mecanismos de sobrevivência... e bem-ditos sejam os motores de busca na internet, que foram o meu livro de receitas quando, de repente, me encontrei a navegar por mares desconhecidos.

Em pouco tempo acabei por ganhar gosto em materializar as receitas que encontrava, desfrutando daquilo que gostava de considerar “obras de arte” comestíveis. Isto porque, nesta fase da minha relação com o fogão, tinha de encontrar formas de manter a chama acesa, caso contrário, cozinhar tornar-se-ia um martírio.

No final de cada prato, e antes da degustação, fazia questão de fotografá-lo. Naquela altura já tinha cortado relações com o Instagram, mas as fotografias serviram para partilhar, pessoalmente, entre o meu círculo, e para reunir uma espécie de portfólio, a que eu pudesse recorrer na falta de ideias para cozinhar. Hoje em dia não mantenho essa prática, excepto quando me pedem, uma vez que esta relação se encontra bem consolidada e evoluiu para uma fase mais profunda. Apercebi-me de que o mais importante na vida é a viagem e não o destino. O processo e não o resultado final. Cozinhar não foge a essa premissa. Digamos que, para mim, funciona como uma espécie de meditação, leva-me a focar a minha atenção no que estou a fazer e a atenuar o turbilhão de pensamentos que tendem constantemente a invadir a minha mente. É uma forma de me sentir presente.

Outro aspecto positivo foi o facto de tudo isto, de forma natural, ter-me levado, gradualmente, a fazer escolhas conscientes na altura de comprar, a fim de reduzir a pegada ecológica e reforçar o meu sistema imunitário, levando-me a aprender a analisar os rótulos dos produtos, a cortar com os açúcares refinados, a reduzir drasticamente o consumo de produtos processados, a adquirir leguminosas e sementes a granel e, mais recentemente, levando-me a frequentar mercados e a optar por produtos locais, sazonais e biológicos.

Como resultado disso, percebi que uma alimentação vegetariana nem sempre é sinónimo de uma alimentação saudável, pois, até então, a soja e os seus derivados eram quase sempre titulares na minha equipa. A maior parte dos meus pratos (à excepção de algumas leguminosas e poucos legumes) tinham como base soja, tofu ou seitan, como acompanhamento arroz ou massa, e, às vezes, uma salada simples de alface e tomate. Curiosamente a soja e as massas são, hoje, elementos que raramente saem do banco, e os legumes e frutas passaram a representar cerca de oitenta por cento da minha tática.

Para além da minha saúde, a minha carteira beneficiou um pouco com esta evolução, porque quando se fala sobre a dieta vegetariana ser muito dispendiosa para determinadas pessoas, sei, por conhecimento empírico, que isso não corresponde inteiramente à verdade. Se mantivermos os mesmos hábitos alimentares e somente tentarmos encontrar substitutos (algo que é muito natural acontecer no período inicial de transição), aí sim, vamo-nos deparar com uma diferença de preços significativa. Estou a referir-me a versões vegetarianas de hambúrgueres, nuggets, rissóis, almôndegas, queijos, fiambres, bolos, biscoitos ou leites. Quase tudo hábitos alimentares adquiridos pós-industrialização, essa que nos toldou a percepção que temos dos ingredientes (e sua proveniência que compõem um prato). Ou seja, são alimentos perfeitamente dispensáveis se mudarmos o nosso mindset.

Entendo que nos dias de hoje, tal como temos vindo a perder a capacidade de escutar o nosso corpo, é também complicado para muitos, e sobretudo para os que têm pessoas a seu encargo, encontrar tempo e disposição para questionar e implementar este tipo de mudanças no seu quotidiano. A maior parte de nós vive em "piloto automático", "multi-atarefado" e constantemente exposto a milhares de informações a cada hora que passa. Não obstante, tem de existir por parte de cada um, à medida que enxerga esta realidade, vontade e determinação para romper com este ciclo doentio em que temos vivido no mundo moderno.

Outro aspecto positivo foi a expansão da empatia pelos meus semelhantes para todo o reino animal. Creio que não existe ninguém que não goste de animais, nem que seja apenas por uma espécie em particular ou pela admiração da sua beleza estética. Já o respeito e empatia por todos eles, é outra conversa e é algo de que eu próprio carecia em certa medida.

Nesta fase transformadora em que me sentia um pouco só, decidi explorar essa empatia com a adopção do Kovu, o meu companheiro de quatro patas que tanta dor de cabeça me deu, mas que também muito me ensinou. Quem diria que um dia eu iria aprender algo com um cão, animal do qual sempre gostei, mas nunca o suficiente para permitir que me desse banhos de língua e me cobrisse o chão de pêlo, tal como o Kovu faz, com tamanha mestria.

Na verdade, já tinha esta intenção por conta da influência que o Tchuy teve em mim. Falo do cão de um dos meus melhores amigos, pois foi através da convivência com ele, e da sua história, que cresceu em mim a empatia pelos cães. No entanto, ao mesmo tempo que sentia ser a altura ideal para adoptar um cão, dei por mim caído numa contradição. Deixei de compactuar com a indústria da exploração animal através da alimentação e, gradualmente, noutros aspectos do meu dia-a-dia, para depois voltar a dar um passo atrás com a sua adopção? Como podem imaginar, falo da questão das rações. Dei por mim inserido num ciclo de egoísmo, no qual outros animais são abatidos para que o “meu” se possa alimentar de forma cómoda e nutricionalmente completa.

Embora eu tenha contribuído para que menos um rafeiro fosse parar às ruas ou a um canil municipal, não deixa de existir uma certa dose de egoísmo ao compactuar com a colectiva distinção de Seres, domesticando e alimentando artificialmente uns em detrimento de outros. No entanto, e a fim de atenuar um pouco esse paradoxo, fiz uma pesquisa intensiva sobre alimentação canina e decidi alimentar o Kovu com uma marca de rações italiana que não testa os seus produtos em animais. Sim, porque este ciclo injusto não se limita à matança. Alguém tem de provar antes de ir para o mercado, e esta face da moeda também não é nada agradável de se ver, para não falar dos ingredientes que compõe a maior parte das rações que estão no mercado, inclusive em versões premium.

Fiz esta escolha sabendo que no futuro viria a alimentá-lo com ração vegetariana, porque antes de o acolher estudei muito essa possibilidade e entendi que os cães podem ser considerados “omnívoros”. Não no sentido literal da palavra, mas no sentido em que demonstram maior flexibilidade no que toca à alimentação, característica herdada pelos lobos que se acostumaram à convivência com os hábitos alimentares humanos. No entanto, para que tal se verifique, o alimento que lhes é oferecido deve ser nutricionalmente equilibrado para atender às suas necessidades fisiológicas. Estamos a falar de conter todos os aminoácidos essenciais que não são produzidos pelo seu organismo e de todos os lípidos, vitaminas e minerais necessários para a manutenção da sua boa saúde. 

A ideia seria mudar a alimentação do Kovu depois de ele completar um ano de vida, fortalecendo assim o seu sistema imunitário com a alimentação convencional, para não negligenciar o seu crescimento. Mas decidi adiar por mais um ano e em breve farei essa transição de forma mais atenta.

Esta questão levanta muita controvérsia e consigo imaginar quais as objecções que muitos poderão levantar, como por exemplo, sobre ser ou não ser contranatura alimentar um cão com ração vegetariana. Mas visto sob esse prisma, podemos reparar que nada é natural a partir do momento em que alimentamos os cães com rações e os subjugamos a regras e condições criadas por nós. Estas práticas não lhes são naturais, apenas surgem da domesticação dos animais pelo Homem moderno (motivos que me levam a considerar o Kovu o último companheiro de quatro patas que voluntariamente terei comigo). Nesta altura, mais importante do que discutir o que é, ou não, contra a sua natureza, é questionar como e quais as melhores formas de os tutores de animais domesticados garantirem de forma consciente a sua estimação, segurança, saúde e bem-estar na medida do que nos é possível fazer.

Não pretendo desviar-me muito mais do assunto, até porque para aprofundar esta matéria já existem muitos estudos e debates onde ambos os lados carregam argumentos bastante válidos. Tal como na questão da alimentação para humanos, eu jogo com a minha intuição e com a informação que me parece fazer mais sentido, testando e observando atentamente os seus efeitos, com o acompanhamento de um profissional de saúde, neste caso um veterinário.

Como podem imaginar, nem tudo foi um mar de rosas e não seria justo se terminasse este testemunho por aqui.

Vou começar pelas questões menores, mas que também tiveram o seu peso. Estou a falar, por exemplo, de que a partir do primeiro dia, e durante bons meses (se não um ano), sentia muitas vezes uma fome desgraçada a todo o instante. Isto devia-se ao simples facto de os alimentos de origem vegetal serem de digestão e absorção mais rápida. O meu organismo não estava habituado, pelo que levou algum tempo a adaptar-se a esta mudança, depois de vinte e oito anos acostumado a um certo padrão.

Devo também confessar que, tal como muitos poderão compreender, satisfazer a minha velha compulsão por doces foi muito complicado. Noventa por cento do que encontramos nas montras das pastelarias e prateleiras dos supermercados está contaminado com derivados de animais, embora no segundo caso já existam mais alternativas, mas que actualmente não vão ao encontro das minhas opções alimentares, não negando a possibilidade de pontualmente experimentar uma coisa ou outra.

Uma das dificuldades que mais enfrentei, como já mencionei anteriormente, foi o facto de me sentir sozinho nesta luta e ver-me passar por tamanha transformação e despertar de consciência enquanto tudo à minha volta parecia estático. Como um jovem de classe média baixa que praticamente viveu toda a sua vida num bairro social (por mais que o meu grande leque de “amigos” transcendesse essa barreira), jamais imaginei passar por este processo. Este tipo de questionamento, e de causas, nada tinha que ver comigo e, provavelmente, eu seria um idiota que se iria rir e banalizar quem estivesse a passar pelo mesmo. Tão verdade, que a minha mudança gerou alguma estranheza entre os meus amigos e familiares.

Senti muito a falta de ter com quem partilhar e trocar ideias. Alguém que estivesse no mesmo barco que eu, alguém que pudesse remar por mim nas alturas mais críticas e vice-versa. Alguém que já tivesse passado pelo mesmo e pudesse partilhar comigo o seu testemunho e algumas dicas numa fase inicial. Se ainda tivesse conta no Facebook talvez descobrisse, entre os meus três mil e tal “amigos”, alguém que pudesse preencher essa lacuna, mas junto com isso viriam outras coisas menos boas e eu não estava disposto a retroceder numa outra decisão que tomei fazendo da solidão um motivo para voltar às redes sociais.

Por último, e para finalizar este testemunho que já se faz longo devido à minha inexperiência (talvez devesse escrever um livro e não um blog), gostaria de abordar uma outra questão muito importante: a aceitação e o respeito pelas escolhas dos outros.

Como referi anteriormente, esta transformação trouxe-me muita revolta pelas respostas que fui encontrando para as minhas questões. Estando sozinho neste processo, procurava trazer luz para dentro do meu círculo mais próximo, cometendo o erro de achar que, pelo facto de tudo isto se tornar tão claro e lógico para mim, o mesmo aconteceria com os meus, quando confrontados com o mesmo conhecimento.

Os primeiros debates tiveram lugar à mesa de jantar, entre família, por minha iniciativa, provocando reflexão através de questões que eu lançava. Depois continuaram entre amigos e outros familiares quando, à medida que me convidavam para eventos, se deparavam com esta minha nova “condição”. Nessas ocasiões o debate partia deles, questionando os meus motivos, e aqui as opiniões eram divididas. Todos respeitavam a minha escolha, mas à esquerda tinha os que a admiravam e à direita os que torciam o nariz, mostrando-se inclinados para o debate, contra-argumentando as minhas razões. Não posso negar que, nesta fase em que a panóplia de informações era fresca na minha memória, ansiava por essa oportunidade de descarregar todo esse conhecimento que era demais para carregar sozinho e, consequentemente, tentar desconstruir as crenças de quem argumentava comigo, herdadas por anteriores gerações, e que também foram minhas durante anos, fruto da ausência de questionamento e reflexão profunda. É compreensível, pois começa desde cedo o condicionamento e a implantação de valores e de crenças nas escolas onde somos educados, ou melhor, instrumentalizados, com o sistema tradicional de ensino que não nos ensina como pensar, mas o que pensar. O mesmo se pode dizer da educação que alguns de nós tiveram em casa, por pais igualmente condicionados que seguem, inconscientemente, o mesmo código de conduta.

Aquilo que deveria, para mim, ter como objectivo a partilha de conhecimento, deixava de ter essa função à medida que me ofereciam resistência ao que eu argumentava, dando lugar a uma luta de egos entre o meu conhecimento e o dos outros, acabando eu próprio por entrar nessa disputa inconscientemente e chegando, inclusive, a elevar o tom da minha voz na impotência de conseguir elucidar o outro, ou melhor, de conseguir sequer ser ouvido. Já para não falar das piadas de que fui alvo, que alimentavam ainda mais essa sensação (e eu até me considero uma pessoa com bastante sentido de humor e o primeiro a rir de mim próprio). O que me incomodava não eram, de todo, as piadas, mas sim a pobreza da maior parte delas, e o facto de serem fruto de uma clara ignorância a respeito da temática em questão.

Com o tempo fui-me apercebendo de que estas discussões apenas me criavam alguma ansiedade e que raríssimas vezes tinham algum efeito positivo. Na verdade, a frustração vinha do facto de eu criar expectativas, ao achar que os outros à minha volta estariam dispostos a ouvir-me, e que conseguiria provocar alguma reflexão neles e, quiçá, uma mudança nos seus hábitos e pensamentos.

No seguimento de tudo isto, vem a conclusão a que cheguei e que já referi anteriormente: Cada um de nós tem um estágio ideal na sua vida para questionar e absorver determinados assuntos. Períodos em que atingimos diferentes estados de pensamento e de consciência, impulsionados por determinados acontecimentos e vivências, quer pelo tempo que vão somando, quer pelo confronto directo com experiências traumáticas.

Entendi também que o ser humano tende a apegar-se ao seu conhecimento e conjunto de crenças como parte da sua identidade, e, quanto maior for a sua identificação com o ego, maior será a sua resistência a ideias contrárias àquelas que, voluntária ou involuntariamente, adquiriu.

Assim sendo, qualquer tentativa de mudar o próximo ou de sobrepor a nossa verdade à do outro é inútil e até contraproducente. Quanto mais o tom de voz se eleva, maior é o efeito contrário ao pretendido, pois o ser humano receberá isso como um atentado à sua persona, e, ao sentir-se atacado, activa automaticamente o seu mecanismo de defesa, negligenciando, nele próprio, qualquer espaço para ouvir e estando apenas interessado em manter de pé as fronteiras da sua “identidade”.

Uma vez compreendido isto, deixei de ter a pretensão de querer “mudar o mundo”. Na verdade, ele já está em constante mutação, resta-me apenas escolher como participar nessa mudança, trilhando um caminho escolhido por mim, em sintonia com o meu estado de consciência e com as minhas convicções, ainda que ao virar na curva me espere um caminho solitário. Entenda-se que solitude não é sinónimo de solidão e essa é a fase da viagem em que me encontro neste momento, a descoberta e o vislumbre gradual dessa verdade.

Esta minha nova conduta permitiu que a humildade não perdesse lugar para a arrogância, qualidade destrutiva muito comum entre os que seguram bandeiras e tencionam mudar o mundo. A arrogância cresce silenciosamente, e quando floresce, transforma-se em ódio.

O meu cão não é o meu melhor amigo, nem gosto mais de animais do que de pessoas. Gosto da natureza como um todo, mas em tempos de crise salvarei primeiro o meu semelhante. Assim como em tempos de agonia, se nada tiver para meter à boca, não serei vegetariano nem vegan, serei um homem com fome e entrarei em modo de sobrevivência animal, comendo o que tiver ao meu alcance. Não faço da minha dieta e dos meus princípios uma religião ou um clube. Não é um regime porque não faço restrições alimentares, mas sim novas escolhas de acordo com a minha consciência. Não é uma colectividade associativa onde dou vazão à necessidade que o Homem tem de pertencer a grupos para se sentir seguro (o que se compreendia nos tempos dos nossos ancestrais que viviam em ambientes hostis, como a natureza selvagem). Também não é uma questão de ego e de querer alimentar a “fome de reconhecimento" (que Dale Carnegie tão bem descreve como necessidade primordial do Homem) ao pertencer a um grupo minoritário que contrarie o pensamento corrente.

Enquanto Ser, não sou o país em que nasço, a tribo a que pertenço, aquilo que como, a roupa que visto, as coisas que compro e os bens que possuo. Sou a minha consciência, as minhas escolhas e as minhas acções. Sou apenas mais um entre tantos nesta família humana, e para não compactuar com a construção de muros que nos tende a separar conforme a história nos conta, eu escolho não segurar bandeira nenhuma, só assim creio poder contribuir para a construção de pontes entre nós/entre todos.

A partir do momento em que isto se tornou claro para mim e passou a fazer parte do meu modo de estar, comecei a notar pequenas mudanças a acontecer dentro de mim e também à minha volta. Se formos fiéis a nós próprios, sem medo de ser quem somos, sem nos deixarmos corromper pelo "efeito manada" e trabalharmos a nossa consciência, essa energia emana para fora e há sempre alguém que nos observa e que, de alguma forma, poderá sentir-se contagiado sem que tenhamos qualquer pretensão de influenciar ou mudar o outro. Da mesma forma acontece connosco.

Segundo Sócrates, "aquele que mover o mundo, primeiro se moverá”.

 

Foto de Andrew Neel em Unsplash

 

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